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A partida, a chegada

Todos os que estavam no saguão do aeroporto portoalegrense sabiam que, mais ou menos tarde, aquele dia acabaria chegando. No entanto, qualquer partida é sentida, especialmente quando decidida, irrevogável e preparada há tempo. Preparado não há de estar, nunca, o coração para um momento como aquele, e lágrimas rolaram, como não poderia deixar de ser. Era a manhã ensolarada do domingo, 19 de outubro. Superado o último olhar e o último aceno, partimos. Uma viagem curta e estranha, como se estivéssemos deixando o nada, indo a lugar nenhum. Mas estávamos deixando Porto Alegre e rumando a São Paulo. Lá, do fim da manhã ao início da noite apenas caminhadas pelo saguão grosseiro e escuro do aeroporto, olhadelas animadas na direção dos painéis e uma pizza (suprema ironia) como almoço improvisado, devorada com empolgação.

O avião deslizou pela pista no início da noite. Mesmo colossal, deixava pouco espaço para as pernas, e isso determinou a sorte da viagem mais importante de nossas vidas até então: apertada e desconfortável. Vimos, ou melhor, não vimos o céu brasileiro na diminuta janela. Nuvens e escuridão. Melhor assim. Instantes depois, acima do tapete brumoso erguia-se a lua, grande e gorda, brilhante e branca. Numa confusão de sentimentos, preenchemos o parco espaço com pouquíssimos movimentos e passamos todo o tempo sem dormir de fato. A paisagem era sempre a mesma, de uma alvura chocante, nada mais. Assim decorreram 13 horas.

Quando a luz do sol, mesmo permeada pela bruma, irrompeu pelos pequenos quadrados da parede do avião, houve um contido e preguiçoso movimento coletivo. O café da manhã fora servido e logo depois a voz simpática e mecânica do comandante anunciava a aterrisagem no aeroporto de Malpensa, em Milão (ou assim anunciam para parecer mais simpático aos turistas: na realidade, Malpensa é uma localidade distante algunas dezenas de quilômetros de Milão). Ali, logo abaixo, estava a Itália, alma européia. Nosso velho sonho, nova casa.

Perfuramos as nuvens. Como um escudo de algodão, elas isolavam o sol na imensidão do espaço. Abaixo, tudo era cinza e úmido. Gotículas de água esvoaçavam. Quando tocamos o chão, não via-se muito além: a área era remota e o clima encarregava-se de bloquear a visão. Procedimentos costumeiros, o coração sereno. Exaltação somente nos primeiros sons da língua italiana. Não que sugerissem qualquer noção de elegância e erudição, pelo contrário. “Madonna di Dio!”, lamentou-se o funcionário, jaleco laranja e expressão rígida, agitando os braços na esperança de ser ajudado pelos companheiros de empreitada. Entramos no ônibus e em um par de minutos estávamos defronte os guichês da imigração. Ali sim alguma tensão: no indizível rolo legal que é o reconhecimento da cidadania, por ninharias já haviam complicado a chegada de brasileiros à Itália. Um policial percorria com olhos desleixados a fila que se formara. Distraiu-se com o celular no momento em que passava a Veri. Depois de algum tempo, carimbou o passaporte, fechou-o. Já de saída, a Veri escuta a pergunta de para onde iria. O sobrenome a denunciara. Disse em meio a um sorriso que iria a Sovizzo. “Sovizzo”, repetiu o guarda, e balançou a cabeça. Baixou os olhos, e foi assim que carimbou o meu passaporte.

A esteira ficou alguns minutos passando vazia à nossa frente, num passo vagaroso que lembrava um carrossel. Estávamos já tranqüilos, mas cansados. Enfim, pequenas e grandes malas coloridas começaram a cair ruidosamente sobre o tapete móvel. Mais alguns instantes e vimos surgir nossa bagagem, devidamente identificada com fitas verdes, brancas e vermelhas. Num salto, nos pusemos a caminhar. “Uscita”, dizia acima de um grande portal, por onde via-se uma claridade opaca. No limiar, um oficial parou uma mulher jovem, analisou-lhe a bagagem de etiquetas verdes e pediu que se dirigisse a uma porta. Nossas etiquetas eram amarelas e parece ter sido isso o código para que nos sentíssemos, verdadeiramente, recepcionados.

O pequeno corredor nos revelou uma figura conhecida. Junto com o clarão da rua vi a Veri ser abraçada por nossa amiga Vane, madrinha de nosso sonho italiano. Fora ela quem, a um custo imposto inclusive ao namorado, obtera para nós a certidão que faltava. Na dependência de um certo Don Marco, evasivo padre lombardo, dessa folha de papel dependia tudo, inclusive aquele momento, que devia a sua realização à amizade da Vane. E era ela quem estava ali, nos recepcionando. Uma troca rápida de palavras e estávamos instalados nas poltronas pretas de um café do saguão de Malpensa. Dali, observei a menos de três metros um jovem de feições berberes, animado por uma música inconfundível, ritmo árabe, que vinha de um celular. Devia tratar-se de um marroquino. Sorridente, deslizava a cabeça por sobre os ombros, acompanhando a canção. Exibia-se a duas moças ocidentais. Não falavam italiano, nem inglês, nem qualquer língua que eu seja capaz de entender, e riam. Ao nosso lado, no corredor, passavam mulheres envoltas em lenços, o andar arrastado. Cruzaram por homens negros, de rosto largos e redondos. Lá longe pude perceber um rapaz vestindo elegante blazer escuro. Celular na mão, falava em italiano. Larguei o peso do corpo e me atirei na poltrona para daí a pouco beber o expresso que nos era servido. Chegamos. | Juliano Bruni

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