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A velha e a rica Europa

A rica Veneza

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009. A bolsa na vitrine da Bottega Veneta custa cerca de 1,5 mil euros… | foto: Veridiana Dalla Vecchia

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009
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“Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”

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Foto: Veridiana Dalla Vecchia

Domingo de fim de maio, já passado do meio-dia. Riva del Vin, a poucos metros da Ponte del Rialto, margem do Canal Grande. Algumas mesas de toalhas muito elegantes, nas cores venezianas, uma fileira de restaurantes pomposos e garçons de todas as partes do mundo a se movimentarem dentro de ternos também escarlate. Da nossa mesa à água talvez apenas um metro e meio, a distância de outra mesa, posta a nosso lado. A tradicional regata fazia com que embarcações de diversos tamanhos cortassem o centro do canal, enquanto as clássicas gôndolas repousavam nos ancoradouros de madeira. Sobre a ponte, uma multidão caminhava a passo curto e lento. Bem mais rápida foi a ambulância, uma ruidosa lancha a motor, vermelha e branca obviamente, que ultrapassou os competidores com as sirenes ligadas. Em Veneza as ruas não são de asfalto ou terra, como se sabe.

Gritinhos de susto, olhares consternados, frigir de lábios. Nossos vizinhos comensais das mesas mais à beira agora reclamam da água que, vinda em ondas a partir da ambulância, batem maliciosas na beira, espirram sutilmente a água e lhes encharcam os pés e as pernas até o joelho. No instante seguinte à desilusão, sorrisos, sorrisos sinceros. Não há como se aborrecer: estamos em Veneza, a cidade capaz de fazer feliz até mesmo quem tem molhados pela água da Laguna os caríssimos mocassins italianos ou a borda de vestidos de grife.

Há sete meses postergamos nossa primeira visita. Eu, particularmente, nutria uma desconfiança séria em relação à afetividade que americanos, sobretudo, dedicavam à cidade. A isso somava-se uma parcial antipatia pela trajetória histórica de Veneza, de como reuniu tesouros e se tornou uma Wall Street medieval e renascimentista. Eram ávidos de riqueza, os venezianos. Mérito e miséria, como sempre, como tudo. A Veri, por sua vez, esperava paciente a fim de reverenciar o berço de uma cultura que é a dela, e a qual defende com muito (e justo) orgulho. Mas estávamos chegando e eu não posso negar até mesmo uma emoção na véspera. Porque, diziam, Veneza é um sonho, além de uma página única na História.

O Google Earth pode esclarecer aos curiosos a geografia espacial da cidade. Mas não elucida como aquilo foi parar ali. São mais de cem ilhas, o que nem com mágica se consegue vislumbrar agora. Isso porque o gênio do Homem parece ter convergido para todos aqueles que, em mil e quinhentos anos, colocaram pedras sobre as ilhotas. Em síntese, é um emaranhado infinito de pequenas e grandes — muito mais pequenas que grandes — passagens entre edifícios belíssimamente construídos, mesmo que tendo de se adaptar às condições exíguas de espaço e funcionalidade. Veneza, na verdade, é um espasmo necessário: se fugia das invasões bárbaras quando se decidiu habitar ilhotas de dimensões sumárias no — como chamou Indro Montanelli — desolado arquipélago. Era 452, Átila rasgava o norte italiano e os habitantes de Padova, Verona, Aquiléia, Treviso e outras cidades e aldeias decidiram se refugiar no terreno mais propício à auto-defesa. O grande jornalista italiano sistetizou: os fugitivos desenvolveram aquela “vida anfíbia que deveria ditar o seu destino”. A peculiaridade do modo de vida aos quais estariam condenados causou estranheza até mesmo a um geógrafo de Ravenna do século VII: “Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”.

Mais de um milênio depois, o que pude testemunhar é o fato de que, talvez, mesmo confinada em suas limitações físicas, Veneza seja a mais bela cidade do mundo por não ter limitações artísticas. Me arrependi totalmente de minha desconfiança. Duvido que em todo o planeta aja algo semelhante em nível de beleza. Veneza é estilo em estado puro. A História explica, claro — contato com o Oriente, civilização cosmopolita, aberta, rica, dinâmica —, mas é preciso caminhar pela cidade, ver o que há para ser visto, para que se possa ter noção do que significa o que estou tentando dizer.

Mas, evidentemente, não é “apenas” a geografia da cidade a tornar tudo tão singular e belo. Claro que deslocar-se por um território urbano onde as ruas são artérias d’água cria um efeito peculiar, mas, superada a fase de adaptação, Veneza concentrou-se no que estava no seco. Os prédios são literalmente amontoados uns aos outros. Pequenos pátios se abrem repentinamente, o que, quando de sua construção, dependia muito do status do dono da área. Becos diminutos muitas vezes abrem-se em improváveis acessos múltiplos: duas ou três escadarias, três ou quatro portas, novas passagens, a água novamente. Tudo poderia ser — para alguém certamente é — muito claustrofóbico, e, no entanto, é excitante, misterioso, belo.

Andamos basicamente em um dos não muito numerosos roteiros para turistas. O objetivo principal é evitar que os visitantes se percam, o que é provável sem a existência de roteiros estabelecidos. Logicamente subvertemos, na medida do possível, essa restrição à nossa liberdade “jornalística”. Então, já no fim do dia e na tentativa de retornar à estação, o inevitável aconteceu e estávamos perdidos. Prudentemente, havíamos comprado um bom mapa ainda na chegada — me orgulho de ter uma excelente capacidade de orientação, ao contrário da Veri, mas nesse caso, em que as ruas molham e onde se pode afundar, achei melhor prevenir. É preciso registrar, porém, que nenhum mapa, mesmo aqueles palm-tops que turistas alemães e orientais em especial adoram exibir, são capazes de simbolizar a geografia exata da cidade. Eu controlei: alguns cruzamentos das calles (lê-se “cáles”, e não aquele bizarro fonema castelhano) são impossíveis de simbolizar graficamente de forma prática. Os pés doíam e em determinado momento nos flagramos caminhando pela mesma via, duas, três, quatro vezes. Foi preciso alguma perspicácia para nos reorientarmos, até que caíssemos — mais uma vez prudentemente — no mesmo caminho da ida. Ou seja, imaginando que a grande maioria dos turistas siga os roteiros pré-estabelecidos, não se visita nem mesmo 20% da área da cidade. Nosso aproveitamento deve ter sido um pouco superior, dados os riscos a que nos entregamos.

Além da morfologia veneziana, a “alma” da cidade é especial. Lojas, muitas lojas, de máscaras, quadros, roupas, sapatos, bijuterias, canetas-tinteiro. Sebos de grandes dimensões, caixas de papelão com discos de vinil a dois euros. Lojas de grifes, outras visivelmente patrimônio de família. Osterias e restaurantes belíssimos, que me fizeram esquecer os pubs britânicos por completo. Nas paredes, as faces expressivas das tradicionalíssimas máscaras por vezes metiam medo, outras vezes pareciam querer contar algo. Como havia previsto, fiquei particularmente marcado por aquelas máscaras. Em geral, essa forma de arte exerce uma espécie de poder sobre as pessoas. Em Veneza, têm-se a impressão de que espreitam, as máscaras. Alguns manequins ficam postados de pé, enrolados em mantos antigos, a cabeça baixa. Assustador e sedutor.

Obviamente, muitos turistas — o ponto negativo, apesar de pensar que, não fosse o contínuo movimento animado dos visitantes, Veneza seria uma cidade sombria, ameaçadora. Alguns demonstram saber onde estão, são até mesmo reverentes. Mas a grande maioria não passa de embasbacados transeuntes, preocupados quase que exclusivamente em comprar, ou em “curtir” a cidade sem ao menos se perguntar por que ela existe, por que é assim. Não lhes vem à mente, estou certo disso, por que estão ali, a não ser o efeito que causa dizer que já esteve em Veneza.

Não visitei o Harry’s Bar, onde muitas figuras deram o ar glamouroso de sua graça — lembro positivamente de Heminghway, um mestre da escrita. Já a Piazza San Marco (desenhada por Leonardo Da Vinci) me pareceu menor, enquanto o campanile se revelou muito maior do que tinha em mente. Não entramos na Basílica, em parte por causa da fila, mas também porque fechava cedo e não consegui descobrir onde raios deveria guardar a mochila que levava nas costas. Por fora é absolutamente linda, bizantina até o último milímetro, com os quatro cavalos dourados (réplicas, porque os originais estão protegidos no interior) fruto do botim da Quarta Cruzada no alto da fachada. O Palácio Ducal, um primor. A Ponte dos Suspiros prejudicada pelos painéis protetores por causa da reforma que fazem no entorno. A margem, com as gôndolas “estacionadas”, belíssima mesmo com o céu cinza-chumbo — nem a chuva de verão, que Vivaldi simbolizou nas Quatro Estações, prejudicou nossa impressão da cidade.

Não andamos sobre as águas, nas gôndolas de um design de sonho. Fica para a próxima vez, que serão muitas. Essa noção esteve sempre presente, afinal moramos a 40 minutos de distância. O que eu espero que se reduza a nada, porque desde o último domingo desejo visceralmente viver em Veneza — se DM, com toda aquela raiva e estreiteza de pensamento pôde, por que também não eu?

Fiquei pensando na ironia daquela suspeita quase desdenhosa do geógrafo ravenense. “É, parece que aquelas ilhas se tornaram uma linda cidade. A mais bela que já vi.” | Juliano Bruni

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Rodinhas

Padova é uma cidade universitária. O ateneu, como chamam aqui, faz o grosso da economia da cidade girar. A própria universidade, fundada em 1222, é um grande universo interno, mas os jovens que a mantém viva movimentam ainda o segmento do entretenimento padovano. O spritz, verdadeira instituição vêneta, é bebido por milhares de ragazzi e ragazze nos fins de tarde, no inverno e principalmente no verão. Nossa vizinhança aqui no bairro Portello é basicamente formada por universitários, já que a região é o quartel-general da maior parte das faculdades.

Mas há uma face melancólica nesse contexto animado de almas juvenis a passar para lá e para cá. Como é muito comum na Itália, onde os estudantes precisam se deslocar para encontrar universidades que ofereçam os cursos especificos, o vai-e-vem não acontece apenas dentro da cidade, mas também para fora dela. O Portello, sendo o centro nevrálgico da universidade, é o que sofre mais com o êxodo dos finais de semana. Toda quinta-feira, o movimento de retorno provisório tem início. A melodia mais ouvida então é o ruído árido e constante das rodinhas das malas. Deslizam em carreata sem fim rumo à estação, puxadas displicentemente.

Nos sábados e domingos, as ruas em torno à nossa casa estão vazias e desoladas. No inverno era muito pior — não havia os numerosos grupos de turistas a se movimentar lentamente. Mas ainda assim é triste. O espaço fica então completamente aberto aos traficantes magrebinos que giram na área como hienas em torno da carcaça (o que fazem também durante as noites da semana, mas sem o efeito desanimador de se sentir solitário em meio àquilo tudo).

É possível, agora que estamos aqui já há meio ano, marcar a passagem da semana através do som das rodinhas. Não é harmonioso, melódico, mas é um som que transmite uma sensação. Talvez de solidão. Ou abandono. Nós estamos lentamente (muito lentamente) nos inserindo no contexto. Não pertencemos completamente a ele ainda. | Juliano Bruni


# IMPORTANTE: nossas postagens estão numa periodicidade bastante irregular porque não conseguimos ainda uma estabilidade para podermos nos dedicar a escrever como deve ser, com calma e tranqüilidade. Talvez inclusive a Veri fique ausente de Favole Italiane um período maior. Tentaremos manter o blog sempre ativo, mesmo que com grandes espaços entre as postagens.

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Primavera-verão

Meu entusiasmo com a primavera européia veio cedo demais. Na semana seguinte a meu último texto, uma onda de calor se espalhou pela península provocando um alerta nacional. Dizem os especialistas — e os cito porque o caso é para estudiosos — que se trata de uma temperatura completamente atípica, muitíssimo “acima da média para o período”. O fato é que os termômetros estão já há quase duas semanas acima dos 30 graus. Ri, e ri muito, da minha própria ingenuidade: por mais que no Rio Grande do Sul estejamos nas franjas dos trópicos, as tais massas de ar quente vinham do eixo central da Terra e duelavam com as massas de ar frio (pelas quais torcia visceralmente) provenientes da Antártida, Patagônia, Argentina. Aqui o ar quente vem do deserto do Saara, o que é quase uma grife.

Evidentemente poderia ficar pior quando se trata de calor — e sobretudo quando eu o estou sofrendo. A Pianura Padana, região geográfica que corresponde ao vale do rio Pó e da qual Padova é uma espécie de capital vêneta, é praticamente a única parte baixa do terreno italiano. Todo o resto do país está sobre montanhas — os Alpes, longitudinalmente ao norte; os Apeninos de norte a sul. A névoa padana de inverno é um símbolo da característica de planície. No verão essa umidade transforma-se numa massa dispersa, mas que de tão consistente chega a alterar a luz solar que chega ao solo. É uma luminosidade etérea, como se viu em algumas passagens do Senhor dos Anéis, algo fosco, menos brilhante. O céu, azul vivo no início da primavera, tornou-se nesses dias de um branco levemente celeste.

Como todo calor úmido, tem-se a sensação de que o próprio corpo é uma espécie de esponja. As pernas ficam bambas, a cabeça dói com uma pressão constante. Impossível ler um livro, caminhar na rua, sentar-se na frente do computador. Tudo isso há um mês do início do verão. Parece que amanhã um vento ameniza a temperatura. Vem da Rússia, o tal vento. O que faz um novo duelo, Saara x Sibéria, para o qual já escolhi meu lado. | Juliano Bruni

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A Primavera

Galhos secos, troncos retorcidos, chão húmido, ar frio, paisagem cinzenta. De repente, num curto espaço de alguns dias — meados de abril —, a natureza literalmente explode. A relva tranforma-se em tapete macio, as árvores quintuplicam seu perímetro, o ar corre fresco, o céu mostra o seu azul e as muitas flores suas muitas cores. Faz sol na primavera européia. O clima é ameno. A cor é o verde.

Cresci, propositalmente ou não, num ambiente eurocêntrico. A despeito de alguns filmes Sessão da Tarde — que, a rigor, eu não podia assistir —, todo meu ambiente infantil e até juvenil era culturalmente europeu. Os muitos livros para crianças que ganhava contavam as histórias dos Irmãos Grimm e outras lendas antiquíssimas e logo eu estaria lendo obras mais maduras sobre os reinos e, consequentemente, sobre os países. Nesse contexto, me sinto bastante realizado em vivenciar um mundo que sempre me encantou. As estações e a representação máxima do mundo físico que proporcionam é talvez um dos mais intrigantes aspectos desse “novo mundo”. Mesmo na “temperada” região meridional do Brasil, não é costume da natureza respeitar uma ordem climática (costumo dizer que temos um outono e três verões). E eu estava curioso, mesmo que se tenha perdido — sobretudo no Ocidente industrial — a referência do clima e das estações como algo digno de nota no dia-a-dia das pessoas. Não me importa que o tempo climático tenha deixado de ser referência com a modernidade. Sob muitos aspectos, vivo no passado. Acho que seria interessante nos perguntarmos como era o mundo pré-industrial.

O inverno é frio, mas acima de tudo é constante. Todas as três estações que vivi já aqui são empenhadas em se autorepresentar. Vi neve por três vezes (novembro, dezembro e janeiro), outras tantas algo parecido. Mais que a sensação térmica, é o ar gelado que causa impressão no inverno: é como uma parede invisível, contra a qual se deve forçar. (Eu estava no céu!) Então essa parede foi suavizando-se, o ar tornou-se cristalino, reluzente, como se brilhasse sozinho. Diría-se que era feito de cristais da Boêmia. Ainda assim as plantas — a natureza terrestre, digamos — esperava. Viu-se semanas estranhas. Parecia que as árvores cochichavam. Conspiravam. Os pássaros por vezes cantavam, mas em geral mantinham um silêncio quase nervoso, tenso. Era março.

O caminho entre nossa casa e o grande hipermercado onde fazemos la spesa domestica é bastante agradável e me lembra as paisagens de minha imaginação infantil. Uma estradinha não muito comprida, mas que adentra um pequeno bosque, costeada por árvores altas e, em um dos lados, a riva de um dos canais de Padova. Há algumas semanas, o cenário era aquele da primeira linha deste texto: burtoniano. Passei por ele hoje e estava satisfeito consigo mesmo: resplandecente e vaidosamente verde e fresco.

Parênteses (quase) inútil. Não me entendam errado, a mudança de hemisfério não alterou minha personalidade: continuo preferindo o inverno, o frio e tudo o que se pode fazer no contexto favorável que criam, quase como um estilo de vida. Mas devo dizer que é bastante gratificante e agradável a (até agora) primavera européia. Tudo isso ganha sentido apenas em confronto com o clima gaúcho, e meridional como um todo. A questão não está apenas na sensação térmica. Está na completa alteração do ritmo da vida — da natureza, mas também das pessoas.

Enfim compreendi o significado dos ciclos das estações e me peguei surpreendido pela satisfação em ver o sol. Entendi o sentido de se aguardar tanto o “renascer” que é o fim do inverno. Os antigos atribuíam valor quase de sentimento humano ao rigor do clima — os mais detestados sendo o inverno e o verão, evidentemente. Agora tudo isso foi compreendido. Pode parecer tolo, mas isso é um eco do passado, o que me é caro.E, a rigor, penso que não vivemos tão independentes da natureza como pensamos.

Estou feliz em ter três estações no ano. O verão, não adianta, continuo dispensando. | Juliano Bruni

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Salvem Saviano

roberto_saviano1Roberto Saviano tem 29 anos, escreveu Gomorra. Quase 2 milhões de cópias vendidas somente na Itália e traduzido em 43 línguas. Hoje ninguém sabe onde vive Saviano. O escritor e jornalista foi jurado de morte pela Camorra. É escoltado por sete policiais, permanentemente, 24 horas por dia. De tempos em tempos, muda de casa, às vezes precisa fugir para o exterior.

Esse é o preço a pagar por quem desafiou a máfia italiana. O jornalista usou literatura e reportagem para descrever a realidade do crime organizado. O livro fala de mansões dos chefões da máfia, criadas como cópia de Hollywood, de áreas rurais cheias de lixo tóxico dispensado por parte da Europa, de uma população que é conivente e muitas vezes protege esse tipo de criminalidade. O autor descreve como são recrutadas crianças e como as fazem acreditar que a única alternativa de vida seja aquela, de associar-se à máfia, e que o único modo verdadeiro de morrer como um homem de verdade seja o de ser assassinado. Um boss mafioso, hoje preso, disse que Saviano não terá chance: assim que todos esquecerem seu livro, que ele não estiver mais nos jornais ou na televisão, a máfia o matará.

Segue uma declaração de Saviano, dada em 2008:

Penso de haver direito a uma pausa. Tenho pensado, durante este tempo, que ceder à tentação de recuar não fosse uma boa idéia, não fosse antes de tudo inteligente. Achei que fosse muito estúpido – além de indecente – renunciar a si mesmo, deixar-se dobrar por homens de nada, gente que te despresa por aquilo que pensa, por como vive, por aquilo que é na mais íntima das fibras, mas, nesse momento, não vejo alguma razão para obstinar-me em viver desta maneira, como prisioneiro de mim mesmo, de meu livro, de meu sucesso. Vá tomar no cu o sucesso! Quero uma vida! Quero uma casa! Quero me apaixonar, tomar uma cerveja em público, ir em uma livraria e escolher um livro lendo o resumo da capa. Quero passear, pegar sol, caminhar na chuva, encontrar as pessoas sem medo e sem assustar minha mãe. Quero ter entorno a mim meus amigos, e poder rir, e não ter que falar de mim, sempre de mim, como se eu fosse um doente terminal e eles fossem constrangidos a uma chata visita inevitável. Merda, tenho só 28 anos! E ainda quero escrever, escrever, escrever porque é minha paixão e minha resistência e eu, para escrever, preciso colocar as mãos na realidade, me esfregar nela, sentir seu cheiro, seu suor e não viver como se estivesse esterelizado em uma câmera hiperbárica, dentro de uma caserna de polícia – hoje aqui, amanhã longe 200 quilômetros – deslocado como um pacote sem saber o que aconteceu ou o que pode acontecer. Em um estado de confusão e precariedade perene que me impede de pensar, de refletir, de me concentrar, qualquer que seja a coisa a fazer. Às vezes me surpreendo a pensar nessas palavras: quero de volta minha vida. Repito a mim mesmo uma a uma, silenciosamente.” | Veridiana Dalla Vecchia

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“Não, obrigado. Eu sou romeno”

A Itália exibe ad nauseam aquela reação peculiar de alguém que é inserido repentinamente em um contexto diferente e estranho. Um amigo italiano nos contou histórias de quando era gurizote, nos anos 60. Falava da extrema humildade no modo de vida dos italianos do norte. Hoje a região é uma das mais industrializadas da Europa, anos-luz à frente da parte meridional da Bota, da qual alguns exacerbados preconceituosos defendem uma suposta “independência”. A Itália, falando como um todo, é um país rico, membro do G7 e – chego ao ponto – destino de um mar de imigrantes. Alguns são como nós, os chamados oriundi, o que determina uma certa interpretação – nem tão positiva, mas definitivamente muito melhor que a média dos imigrantes sem vínculos, mesmo que remotos, com a Itália. E é dessa relação entre italianos nativos e stranieri (o termo já diz muito) que tiro algumas lições. Aprende-se muito quando nosso ponto de observação encontra-se estrategicamente deslocado de nós mesmos: não somos italianos, mas não somos stranieri. É uma sensação estranha. Algumas dessas lições são, de certa maneira, uma forma de sofrimento. Muitos italianos fazem questão de demonstrar estranheza (e superioridade) na convivência com os estrangeiros. Esses, por sua vez, na maioria das vezes introspectam uma inferioridade que não têm, afinal de contas.

Não é a regra, mas um evento – ocorrido ontem e que me foi narrado – me marcou. Num centro comercial de Padova, um rapaz recebe um panfleto promocional de internet e tv a cabo da mão de uma funcionária. Ela, italiana: “Estás interessado, posso te explicar como funciona”. A resposta do rapaz veio em posição extremamente humilde e inferiorizada, para espanto da própria funcionária. “Não, não, obrigado. Eu sou romeno.” | Juliano Bruni

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