“Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”

venezia_1

Foto: Veridiana Dalla Vecchia

Domingo de fim de maio, já passado do meio-dia. Riva del Vin, a poucos metros da Ponte del Rialto, margem do Canal Grande. Algumas mesas de toalhas muito elegantes, nas cores venezianas, uma fileira de restaurantes pomposos e garçons de todas as partes do mundo a se movimentarem dentro de ternos também escarlate. Da nossa mesa à água talvez apenas um metro e meio, a distância de outra mesa, posta a nosso lado. A tradicional regata fazia com que embarcações de diversos tamanhos cortassem o centro do canal, enquanto as clássicas gôndolas repousavam nos ancoradouros de madeira. Sobre a ponte, uma multidão caminhava a passo curto e lento. Bem mais rápida foi a ambulância, uma ruidosa lancha a motor, vermelha e branca obviamente, que ultrapassou os competidores com as sirenes ligadas. Em Veneza as ruas não são de asfalto ou terra, como se sabe.

Gritinhos de susto, olhares consternados, frigir de lábios. Nossos vizinhos comensais das mesas mais à beira agora reclamam da água que, vinda em ondas a partir da ambulância, batem maliciosas na beira, espirram sutilmente a água e lhes encharcam os pés e as pernas até o joelho. No instante seguinte à desilusão, sorrisos, sorrisos sinceros. Não há como se aborrecer: estamos em Veneza, a cidade capaz de fazer feliz até mesmo quem tem molhados pela água da Laguna os caríssimos mocassins italianos ou a borda de vestidos de grife.

Há sete meses postergamos nossa primeira visita. Eu, particularmente, nutria uma desconfiança séria em relação à afetividade que americanos, sobretudo, dedicavam à cidade. A isso somava-se uma parcial antipatia pela trajetória histórica de Veneza, de como reuniu tesouros e se tornou uma Wall Street medieval e renascimentista. Eram ávidos de riqueza, os venezianos. Mérito e miséria, como sempre, como tudo. A Veri, por sua vez, esperava paciente a fim de reverenciar o berço de uma cultura que é a dela, e a qual defende com muito (e justo) orgulho. Mas estávamos chegando e eu não posso negar até mesmo uma emoção na véspera. Porque, diziam, Veneza é um sonho, além de uma página única na História.

O Google Earth pode esclarecer aos curiosos a geografia espacial da cidade. Mas não elucida como aquilo foi parar ali. São mais de cem ilhas, o que nem com mágica se consegue vislumbrar agora. Isso porque o gênio do Homem parece ter convergido para todos aqueles que, em mil e quinhentos anos, colocaram pedras sobre as ilhotas. Em síntese, é um emaranhado infinito de pequenas e grandes — muito mais pequenas que grandes — passagens entre edifícios belíssimamente construídos, mesmo que tendo de se adaptar às condições exíguas de espaço e funcionalidade. Veneza, na verdade, é um espasmo necessário: se fugia das invasões bárbaras quando se decidiu habitar ilhotas de dimensões sumárias no — como chamou Indro Montanelli — desolado arquipélago. Era 452, Átila rasgava o norte italiano e os habitantes de Padova, Verona, Aquiléia, Treviso e outras cidades e aldeias decidiram se refugiar no terreno mais propício à auto-defesa. O grande jornalista italiano sistetizou: os fugitivos desenvolveram aquela “vida anfíbia que deveria ditar o seu destino”. A peculiaridade do modo de vida aos quais estariam condenados causou estranheza até mesmo a um geógrafo de Ravenna do século VII: “Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”.

Mais de um milênio depois, o que pude testemunhar é o fato de que, talvez, mesmo confinada em suas limitações físicas, Veneza seja a mais bela cidade do mundo por não ter limitações artísticas. Me arrependi totalmente de minha desconfiança. Duvido que em todo o planeta aja algo semelhante em nível de beleza. Veneza é estilo em estado puro. A História explica, claro — contato com o Oriente, civilização cosmopolita, aberta, rica, dinâmica —, mas é preciso caminhar pela cidade, ver o que há para ser visto, para que se possa ter noção do que significa o que estou tentando dizer.

Mas, evidentemente, não é “apenas” a geografia da cidade a tornar tudo tão singular e belo. Claro que deslocar-se por um território urbano onde as ruas são artérias d’água cria um efeito peculiar, mas, superada a fase de adaptação, Veneza concentrou-se no que estava no seco. Os prédios são literalmente amontoados uns aos outros. Pequenos pátios se abrem repentinamente, o que, quando de sua construção, dependia muito do status do dono da área. Becos diminutos muitas vezes abrem-se em improváveis acessos múltiplos: duas ou três escadarias, três ou quatro portas, novas passagens, a água novamente. Tudo poderia ser — para alguém certamente é — muito claustrofóbico, e, no entanto, é excitante, misterioso, belo.

Andamos basicamente em um dos não muito numerosos roteiros para turistas. O objetivo principal é evitar que os visitantes se percam, o que é provável sem a existência de roteiros estabelecidos. Logicamente subvertemos, na medida do possível, essa restrição à nossa liberdade “jornalística”. Então, já no fim do dia e na tentativa de retornar à estação, o inevitável aconteceu e estávamos perdidos. Prudentemente, havíamos comprado um bom mapa ainda na chegada — me orgulho de ter uma excelente capacidade de orientação, ao contrário da Veri, mas nesse caso, em que as ruas molham e onde se pode afundar, achei melhor prevenir. É preciso registrar, porém, que nenhum mapa, mesmo aqueles palm-tops que turistas alemães e orientais em especial adoram exibir, são capazes de simbolizar a geografia exata da cidade. Eu controlei: alguns cruzamentos das calles (lê-se “cáles”, e não aquele bizarro fonema castelhano) são impossíveis de simbolizar graficamente de forma prática. Os pés doíam e em determinado momento nos flagramos caminhando pela mesma via, duas, três, quatro vezes. Foi preciso alguma perspicácia para nos reorientarmos, até que caíssemos — mais uma vez prudentemente — no mesmo caminho da ida. Ou seja, imaginando que a grande maioria dos turistas siga os roteiros pré-estabelecidos, não se visita nem mesmo 20% da área da cidade. Nosso aproveitamento deve ter sido um pouco superior, dados os riscos a que nos entregamos.

Além da morfologia veneziana, a “alma” da cidade é especial. Lojas, muitas lojas, de máscaras, quadros, roupas, sapatos, bijuterias, canetas-tinteiro. Sebos de grandes dimensões, caixas de papelão com discos de vinil a dois euros. Lojas de grifes, outras visivelmente patrimônio de família. Osterias e restaurantes belíssimos, que me fizeram esquecer os pubs britânicos por completo. Nas paredes, as faces expressivas das tradicionalíssimas máscaras por vezes metiam medo, outras vezes pareciam querer contar algo. Como havia previsto, fiquei particularmente marcado por aquelas máscaras. Em geral, essa forma de arte exerce uma espécie de poder sobre as pessoas. Em Veneza, têm-se a impressão de que espreitam, as máscaras. Alguns manequins ficam postados de pé, enrolados em mantos antigos, a cabeça baixa. Assustador e sedutor.

Obviamente, muitos turistas — o ponto negativo, apesar de pensar que, não fosse o contínuo movimento animado dos visitantes, Veneza seria uma cidade sombria, ameaçadora. Alguns demonstram saber onde estão, são até mesmo reverentes. Mas a grande maioria não passa de embasbacados transeuntes, preocupados quase que exclusivamente em comprar, ou em “curtir” a cidade sem ao menos se perguntar por que ela existe, por que é assim. Não lhes vem à mente, estou certo disso, por que estão ali, a não ser o efeito que causa dizer que já esteve em Veneza.

Não visitei o Harry’s Bar, onde muitas figuras deram o ar glamouroso de sua graça — lembro positivamente de Heminghway, um mestre da escrita. Já a Piazza San Marco (desenhada por Leonardo Da Vinci) me pareceu menor, enquanto o campanile se revelou muito maior do que tinha em mente. Não entramos na Basílica, em parte por causa da fila, mas também porque fechava cedo e não consegui descobrir onde raios deveria guardar a mochila que levava nas costas. Por fora é absolutamente linda, bizantina até o último milímetro, com os quatro cavalos dourados (réplicas, porque os originais estão protegidos no interior) fruto do botim da Quarta Cruzada no alto da fachada. O Palácio Ducal, um primor. A Ponte dos Suspiros prejudicada pelos painéis protetores por causa da reforma que fazem no entorno. A margem, com as gôndolas “estacionadas”, belíssima mesmo com o céu cinza-chumbo — nem a chuva de verão, que Vivaldi simbolizou nas Quatro Estações, prejudicou nossa impressão da cidade.

Não andamos sobre as águas, nas gôndolas de um design de sonho. Fica para a próxima vez, que serão muitas. Essa noção esteve sempre presente, afinal moramos a 40 minutos de distância. O que eu espero que se reduza a nada, porque desde o último domingo desejo visceralmente viver em Veneza — se DM, com toda aquela raiva e estreiteza de pensamento pôde, por que também não eu?

Fiquei pensando na ironia daquela suspeita quase desdenhosa do geógrafo ravenense. “É, parece que aquelas ilhas se tornaram uma linda cidade. A mais bela que já vi.” | Juliano Bruni

Annunci

7 commenti

Archiviato in Uncategorized

7 risposte a ““Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”

  1. André Grassi

    Bah, Juliano, só tu não sabias… eh eh eh.;) Agora esperamos pela Veneza das fotos da Veri !
    Abração para os dois.
    André

  2. veridv

    Infelizmente não tenho muitas fotos, a luz não estava boa. 😉 Na próxima vez que for a Veneza prometo imagens melhores…
    André, sabe que aqui em Padova tem uma rua chamada A. Grassi!!!
    Bom saber que tu acompanhas o blog! Abração.
    Veri

  3. espacoculturalccaa

    morar lá?!
    esqueceu os pubs??!!

    hehehe.. entendo um pouco.
    =P

    carol

  4. João Dal Mollin

    Desconfiando de e postergando Veneza… tsc tsc…

    Pelo menos o sentimento de culpa causou esse belíssimo texto! Excelente mesmo, amizade à parte.

    Baita abraço, saudades!

    PS: Veri, em Bento tem uma rua chamada João Dal Molin. É um começo…

  5. veridv

    É um ótimo começo, João. Hehe… Saudades.

  6. veridv

    Joao, tinha esquecido, mais que ser nome de rua, tu è nome da base aerea de Vicenza… hehe…

  7. João Dal Mollin

    Ah, mas essa é todo mundo contra, até eu! hehehehe

    Saudades, abraços!

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione / Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione / Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione / Modifica )

Google+ photo

Stai commentando usando il tuo account Google+. Chiudi sessione / Modifica )

Connessione a %s...