A Primavera

Galhos secos, troncos retorcidos, chão húmido, ar frio, paisagem cinzenta. De repente, num curto espaço de alguns dias — meados de abril —, a natureza literalmente explode. A relva tranforma-se em tapete macio, as árvores quintuplicam seu perímetro, o ar corre fresco, o céu mostra o seu azul e as muitas flores suas muitas cores. Faz sol na primavera européia. O clima é ameno. A cor é o verde.

Cresci, propositalmente ou não, num ambiente eurocêntrico. A despeito de alguns filmes Sessão da Tarde — que, a rigor, eu não podia assistir —, todo meu ambiente infantil e até juvenil era culturalmente europeu. Os muitos livros para crianças que ganhava contavam as histórias dos Irmãos Grimm e outras lendas antiquíssimas e logo eu estaria lendo obras mais maduras sobre os reinos e, consequentemente, sobre os países. Nesse contexto, me sinto bastante realizado em vivenciar um mundo que sempre me encantou. As estações e a representação máxima do mundo físico que proporcionam é talvez um dos mais intrigantes aspectos desse “novo mundo”. Mesmo na “temperada” região meridional do Brasil, não é costume da natureza respeitar uma ordem climática (costumo dizer que temos um outono e três verões). E eu estava curioso, mesmo que se tenha perdido — sobretudo no Ocidente industrial — a referência do clima e das estações como algo digno de nota no dia-a-dia das pessoas. Não me importa que o tempo climático tenha deixado de ser referência com a modernidade. Sob muitos aspectos, vivo no passado. Acho que seria interessante nos perguntarmos como era o mundo pré-industrial.

O inverno é frio, mas acima de tudo é constante. Todas as três estações que vivi já aqui são empenhadas em se autorepresentar. Vi neve por três vezes (novembro, dezembro e janeiro), outras tantas algo parecido. Mais que a sensação térmica, é o ar gelado que causa impressão no inverno: é como uma parede invisível, contra a qual se deve forçar. (Eu estava no céu!) Então essa parede foi suavizando-se, o ar tornou-se cristalino, reluzente, como se brilhasse sozinho. Diría-se que era feito de cristais da Boêmia. Ainda assim as plantas — a natureza terrestre, digamos — esperava. Viu-se semanas estranhas. Parecia que as árvores cochichavam. Conspiravam. Os pássaros por vezes cantavam, mas em geral mantinham um silêncio quase nervoso, tenso. Era março.

O caminho entre nossa casa e o grande hipermercado onde fazemos la spesa domestica é bastante agradável e me lembra as paisagens de minha imaginação infantil. Uma estradinha não muito comprida, mas que adentra um pequeno bosque, costeada por árvores altas e, em um dos lados, a riva de um dos canais de Padova. Há algumas semanas, o cenário era aquele da primeira linha deste texto: burtoniano. Passei por ele hoje e estava satisfeito consigo mesmo: resplandecente e vaidosamente verde e fresco.

Parênteses (quase) inútil. Não me entendam errado, a mudança de hemisfério não alterou minha personalidade: continuo preferindo o inverno, o frio e tudo o que se pode fazer no contexto favorável que criam, quase como um estilo de vida. Mas devo dizer que é bastante gratificante e agradável a (até agora) primavera européia. Tudo isso ganha sentido apenas em confronto com o clima gaúcho, e meridional como um todo. A questão não está apenas na sensação térmica. Está na completa alteração do ritmo da vida — da natureza, mas também das pessoas.

Enfim compreendi o significado dos ciclos das estações e me peguei surpreendido pela satisfação em ver o sol. Entendi o sentido de se aguardar tanto o “renascer” que é o fim do inverno. Os antigos atribuíam valor quase de sentimento humano ao rigor do clima — os mais detestados sendo o inverno e o verão, evidentemente. Agora tudo isso foi compreendido. Pode parecer tolo, mas isso é um eco do passado, o que me é caro.E, a rigor, penso que não vivemos tão independentes da natureza como pensamos.

Estou feliz em ter três estações no ano. O verão, não adianta, continuo dispensando. | Juliano Bruni

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2 commenti

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2 risposte a “A Primavera

  1. espacoculturalccaa

    que delícia.. ai ai. aqui tá começando o friozinho de ter que andar de meia em casa.

  2. Daniel Ricci Araújo

    Bah, queria estar aí agora.

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