Archivi del mese: maggio 2009

Rodinhas

Padova é uma cidade universitária. O ateneu, como chamam aqui, faz o grosso da economia da cidade girar. A própria universidade, fundada em 1222, é um grande universo interno, mas os jovens que a mantém viva movimentam ainda o segmento do entretenimento padovano. O spritz, verdadeira instituição vêneta, é bebido por milhares de ragazzi e ragazze nos fins de tarde, no inverno e principalmente no verão. Nossa vizinhança aqui no bairro Portello é basicamente formada por universitários, já que a região é o quartel-general da maior parte das faculdades.

Mas há uma face melancólica nesse contexto animado de almas juvenis a passar para lá e para cá. Como é muito comum na Itália, onde os estudantes precisam se deslocar para encontrar universidades que ofereçam os cursos especificos, o vai-e-vem não acontece apenas dentro da cidade, mas também para fora dela. O Portello, sendo o centro nevrálgico da universidade, é o que sofre mais com o êxodo dos finais de semana. Toda quinta-feira, o movimento de retorno provisório tem início. A melodia mais ouvida então é o ruído árido e constante das rodinhas das malas. Deslizam em carreata sem fim rumo à estação, puxadas displicentemente.

Nos sábados e domingos, as ruas em torno à nossa casa estão vazias e desoladas. No inverno era muito pior — não havia os numerosos grupos de turistas a se movimentar lentamente. Mas ainda assim é triste. O espaço fica então completamente aberto aos traficantes magrebinos que giram na área como hienas em torno da carcaça (o que fazem também durante as noites da semana, mas sem o efeito desanimador de se sentir solitário em meio àquilo tudo).

É possível, agora que estamos aqui já há meio ano, marcar a passagem da semana através do som das rodinhas. Não é harmonioso, melódico, mas é um som que transmite uma sensação. Talvez de solidão. Ou abandono. Nós estamos lentamente (muito lentamente) nos inserindo no contexto. Não pertencemos completamente a ele ainda. | Juliano Bruni


# IMPORTANTE: nossas postagens estão numa periodicidade bastante irregular porque não conseguimos ainda uma estabilidade para podermos nos dedicar a escrever como deve ser, com calma e tranqüilidade. Talvez inclusive a Veri fique ausente de Favole Italiane um período maior. Tentaremos manter o blog sempre ativo, mesmo que com grandes espaços entre as postagens.

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Primavera-verão

Meu entusiasmo com a primavera européia veio cedo demais. Na semana seguinte a meu último texto, uma onda de calor se espalhou pela península provocando um alerta nacional. Dizem os especialistas — e os cito porque o caso é para estudiosos — que se trata de uma temperatura completamente atípica, muitíssimo “acima da média para o período”. O fato é que os termômetros estão já há quase duas semanas acima dos 30 graus. Ri, e ri muito, da minha própria ingenuidade: por mais que no Rio Grande do Sul estejamos nas franjas dos trópicos, as tais massas de ar quente vinham do eixo central da Terra e duelavam com as massas de ar frio (pelas quais torcia visceralmente) provenientes da Antártida, Patagônia, Argentina. Aqui o ar quente vem do deserto do Saara, o que é quase uma grife.

Evidentemente poderia ficar pior quando se trata de calor — e sobretudo quando eu o estou sofrendo. A Pianura Padana, região geográfica que corresponde ao vale do rio Pó e da qual Padova é uma espécie de capital vêneta, é praticamente a única parte baixa do terreno italiano. Todo o resto do país está sobre montanhas — os Alpes, longitudinalmente ao norte; os Apeninos de norte a sul. A névoa padana de inverno é um símbolo da característica de planície. No verão essa umidade transforma-se numa massa dispersa, mas que de tão consistente chega a alterar a luz solar que chega ao solo. É uma luminosidade etérea, como se viu em algumas passagens do Senhor dos Anéis, algo fosco, menos brilhante. O céu, azul vivo no início da primavera, tornou-se nesses dias de um branco levemente celeste.

Como todo calor úmido, tem-se a sensação de que o próprio corpo é uma espécie de esponja. As pernas ficam bambas, a cabeça dói com uma pressão constante. Impossível ler um livro, caminhar na rua, sentar-se na frente do computador. Tudo isso há um mês do início do verão. Parece que amanhã um vento ameniza a temperatura. Vem da Rússia, o tal vento. O que faz um novo duelo, Saara x Sibéria, para o qual já escolhi meu lado. | Juliano Bruni

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A Primavera

Galhos secos, troncos retorcidos, chão húmido, ar frio, paisagem cinzenta. De repente, num curto espaço de alguns dias — meados de abril —, a natureza literalmente explode. A relva tranforma-se em tapete macio, as árvores quintuplicam seu perímetro, o ar corre fresco, o céu mostra o seu azul e as muitas flores suas muitas cores. Faz sol na primavera européia. O clima é ameno. A cor é o verde.

Cresci, propositalmente ou não, num ambiente eurocêntrico. A despeito de alguns filmes Sessão da Tarde — que, a rigor, eu não podia assistir —, todo meu ambiente infantil e até juvenil era culturalmente europeu. Os muitos livros para crianças que ganhava contavam as histórias dos Irmãos Grimm e outras lendas antiquíssimas e logo eu estaria lendo obras mais maduras sobre os reinos e, consequentemente, sobre os países. Nesse contexto, me sinto bastante realizado em vivenciar um mundo que sempre me encantou. As estações e a representação máxima do mundo físico que proporcionam é talvez um dos mais intrigantes aspectos desse “novo mundo”. Mesmo na “temperada” região meridional do Brasil, não é costume da natureza respeitar uma ordem climática (costumo dizer que temos um outono e três verões). E eu estava curioso, mesmo que se tenha perdido — sobretudo no Ocidente industrial — a referência do clima e das estações como algo digno de nota no dia-a-dia das pessoas. Não me importa que o tempo climático tenha deixado de ser referência com a modernidade. Sob muitos aspectos, vivo no passado. Acho que seria interessante nos perguntarmos como era o mundo pré-industrial.

O inverno é frio, mas acima de tudo é constante. Todas as três estações que vivi já aqui são empenhadas em se autorepresentar. Vi neve por três vezes (novembro, dezembro e janeiro), outras tantas algo parecido. Mais que a sensação térmica, é o ar gelado que causa impressão no inverno: é como uma parede invisível, contra a qual se deve forçar. (Eu estava no céu!) Então essa parede foi suavizando-se, o ar tornou-se cristalino, reluzente, como se brilhasse sozinho. Diría-se que era feito de cristais da Boêmia. Ainda assim as plantas — a natureza terrestre, digamos — esperava. Viu-se semanas estranhas. Parecia que as árvores cochichavam. Conspiravam. Os pássaros por vezes cantavam, mas em geral mantinham um silêncio quase nervoso, tenso. Era março.

O caminho entre nossa casa e o grande hipermercado onde fazemos la spesa domestica é bastante agradável e me lembra as paisagens de minha imaginação infantil. Uma estradinha não muito comprida, mas que adentra um pequeno bosque, costeada por árvores altas e, em um dos lados, a riva de um dos canais de Padova. Há algumas semanas, o cenário era aquele da primeira linha deste texto: burtoniano. Passei por ele hoje e estava satisfeito consigo mesmo: resplandecente e vaidosamente verde e fresco.

Parênteses (quase) inútil. Não me entendam errado, a mudança de hemisfério não alterou minha personalidade: continuo preferindo o inverno, o frio e tudo o que se pode fazer no contexto favorável que criam, quase como um estilo de vida. Mas devo dizer que é bastante gratificante e agradável a (até agora) primavera européia. Tudo isso ganha sentido apenas em confronto com o clima gaúcho, e meridional como um todo. A questão não está apenas na sensação térmica. Está na completa alteração do ritmo da vida — da natureza, mas também das pessoas.

Enfim compreendi o significado dos ciclos das estações e me peguei surpreendido pela satisfação em ver o sol. Entendi o sentido de se aguardar tanto o “renascer” que é o fim do inverno. Os antigos atribuíam valor quase de sentimento humano ao rigor do clima — os mais detestados sendo o inverno e o verão, evidentemente. Agora tudo isso foi compreendido. Pode parecer tolo, mas isso é um eco do passado, o que me é caro.E, a rigor, penso que não vivemos tão independentes da natureza como pensamos.

Estou feliz em ter três estações no ano. O verão, não adianta, continuo dispensando. | Juliano Bruni

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