Outrora rico

A derrocada italiana na Champions League foi lida de forma competente pelo único grande clube do país que não a disputava nesta edição. O milanista Adriano Galliani, presidente em substituição a Berlusconi (não que precisasse realmente, já que este é onipresente, da Sicília ao Vale D’Aosta), afirmou que os resultados em campo refletem a organização do futebol nacional de Inglaterra e Itália. Não reinventou a roda, mas citou os estádios repletos e bonitos, os muitos grandes jogadores e a saúde financeira dos clubes da terra do Oasis. Nem precisou lembrar, portanto, as arquibancadas de estádios decrépitos cada vez mais vazias nos campos da Bota, os escândalos, sem falar da neurótica psicologia do futebol daqui: existe uma verdadeira psicose coletiva na análise da arbitragem, nos supostos “esquemas” de favorecimento para determinadas agremiações, e até na confecção da tabela. Penso que, como brasileiro, esse choque de cultura futebolística não seria tão grave, não tivesse lido o já referido Calcio, história do esporte que fez a Itália, do historiador inglês John Foot. Esse comportamento remonta às origens do calcio e dificilmente mudará. Recentemente a própria imprensa esportiva, na figura da laboriosa redação esportiva da RAI Due, deu-se conta da histeria – eles chamaram de “maneira como encaramos o jogo” – e produziram uma série de matérias sobre como é tratada a questão do juiz nas ligas “ricas” da Alemanha (o eterno ponto de referência italiano), Inglaterra e Espanha, além do aspecto administrativo e comercial. Concluíram que sim, talvez a “maneira de encarar” os erros arbitrais aqui seja demasiadamente carregada e negativa. Verdade, parece que isso se reflete na presença de público, que, não temos como contestar, anda mal, etc.

Parece mentira, mas após a “desclassificação honrada” da Juventus, da “falta de sorte romana” e da “óbvia superioridade” adversária da qual foi vítima a Inter fala-se aqui como normalmente explicamos uma derrota sul-americana em um Mundial Interclubes frente aos europeus ricos e estruturados: coisa natural e previsível, na qual a verdadeira apoteose seria o sucesso italiano. Acabo de ver uma bela entrevista de Arrigo Sacchi na tv em que disse literalmente: “colhemos o que semeamos”. Confesso que estranho esse comportamento, profundamente. O “complexo de vira-lata” sente-se também fora de campo: independentemente dos valores, o “fico” de Kaká foi reverenciado pela mídia. O outrora riquíssimo futebol da Itália viu-se durante uma longa semana com a respiração suspensa, esperando a palavra final do craque brasileiro ao convite do Manchester… City. Evidentemente, qualquer clube do planeta pode-se ver refém de um sheik árabe enlouquecido e sedento de glória futebolística. Mas fato é que a potencial vítima de sua vontade de gastar milhões deva ser, necessariamente, atrativa – sob diversos aspectos, não apenas esportivos (no decênio passado, o filho do líder líbio Ghedafi comprou parte da Juventus, mas duvido que repetiria a tática hoje). Não estou defendendo a posse de clubes tradicionais de futebol por qualquer um que tenha na conta alguns milhares, pelo contrário. Porém não se pode ignorar que o nível de business no futebol moderno indique uma, digamos, atratabilidade. A Itália, a despeito do sucesso da Nazionale de 2006, parece estar condenada ao segundo escalão do futebol europeu. A menos que se faça alguma coisa. | Juliano Bruni

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