Archivi del mese: marzo 2009

O desaparecimento dos fatos

O bom jornalismo não depende de convicção política, mas de honestidade e respeito à verdade factual. Infelizmente acontece, tanto na direita quanto na esquerda, que às vezes os fatos “desapareçam”, as abordagens e mesmo as condenações judiciais se invertam. As justificativas para se esconder os fatos são variadas, mas todas passam por uma questão principal, a faltar de amor à profissão e de respeito a seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Cito Marco Travaglio, jornalista italiano:

Há quem esconda os fatos porque não os conhece, é ignorante, despreparado, descuidado e não tem vontade de estudar, de informar-se.

Há quem esconda os fatos porque procurar as notícias cansa e até se corre o risco de suar.

Há quem esconda os fatos porque tem medo de contestação, de causas civis, de pedidos de resarcimento milionários, que colocam em risco o salário e deixar o editor com raiva, de saco cheio de ter que pagar advogados por causa de qualquer porra-louca da redação.

Há quem esconda os fatos porque do contrário não seria convidado mais a certos salões, onde se encontram sempre líderes de direita e líderes de esquerda, controladores e controlados, guardas e ladrões, putas e cardeais, príncipes e revolucionários, fascistas e ex-lutadores, onde todos são amigos de todos e é melhor não descontentar ninguém.

Há quem esconda os fatos porque contradizem a linha do jornal.

Há quem esconda os fatos porque também a si mesmo porque tem medo de ter que mudar de opinão.

Há quem esconda os fatos porque depois, quem sabe, possa fazer uma consultoria para o governo ou para a câmera de comércio ou com a união industrial ou com o sindicato ou com o banco da esquina.

Há quem esconda os fatos porque nasceu escravo e, como dizia Victor Hugo, ‘existem pessoas que pagariam para se vender’.” | Veridiana Dalla Vecchia

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Os fins justificam os meios (ou por que clonar o mamute?)

Cito Maquiavel no título não para tratar de política, como poderia se esperar se não fosse pelo mamute. Quero falar de ciência. Há alguns meses esse assunto me persegue, em conversas e programas de televisão, mas principalmente em leituras que aparentemente não estão ligadas ao tema.

Em um programa da TV italiana, cientistas explicavam como, em poucas décadas, a Humanidade será capaz de fazer reeviver o mamute siberiano a partir do mapeamento de seu DNA encontrado em fósseis. Em nenhum momento os entusiasmados entrevistados indicaram o porquê. Me pergunto: para quê clonar o mamute?

O sociólogo polonês Zygmun Bauman analisa, no livro Modernidade e Holocausto, como a matança em massa só poderia ter ocorrido em uma época racional como a nossa. Vocês devem estar se perguntando o que tem a ver o Holocausto com o mamute. A Ciência. Ela é o ponto de ligação. Entre os vários aspectos apontados por Bauman como facilitador da tragédia provocada pelo nazismo a ciência é um dos mais pertubadores. A amoralidade científica colaborou, mesmo que não decisivamente, para a aceitação da Solução Final (o extermínio dos judeus) do regime de Adolf Hitler. Qual a moral de clonar o mamute?

A ciência moderna fez sua história como a vitoriosa batalha da razão contra a irracionalidade. Para Bauman, a moral e a religião, como não podiam racionalmente legitimar as exigências humanas, foram condenadas. Neste processo, a ciência “tornou-se cega e muda”. “Viu a escravidão nos campos de concentração como uma oportunidade única e maravilhosa para conduzir suas pesquisas médicas com vistas ao avanço do conhecimento e – claro – da humanidade.” Em troca do financiamento para suas pesquisas, os cientistas alemães – quando não participavam ativamente da execução da política do III Reich – pelo menos tiveram a responsabilidade de dar de ombros ao que ocorria. A ciência estava sendo desenvolvida, isso era o que importava.

“Na melhor das hipóteses, o culto da racionalidade, institucionalizado como ciência moderna, revelou-se impotente para impedir o Estado de partir para o crime organizado; na pior, revelou-se instrumental na produção da transformação.” | Veridiana Dalla Vecchia

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Sacchi

Gosto de Arrigo Sacchi, o responsável pelo grande Milan de fins dos anos 80 e início dos 90. Na mentalidade majestosa sul-americana de defensores do futebol alegre e sincero contra os cínicos, sisudos e pernas-de-pau europeus, esquecemos muitas vezes de render homenagem e justiça a quem merece. Claro que discordo da “humilde arrogância” platina e brasileira, mas reconheço que demorei a notar outros gênios da casamata além de Rinnus Michels, meu ídolo teórico. O Milan de Sacchi, além de vir a ser um de meus rivais italianos, encantava minha paixão juvenil pelo futebol. Naquele tempo, a Bandeirantes entrava para a história da crônica esportiva brasileira ao transmitir o campeonato italiano (narração de Sílvio Luís e comentários de Sílvio Lancelloti), domingos ao meio-dia e era ali que via o Milan desfilar. Van Basten (meu inspirador, que me demonstrou a aptidão de alguém de quase dois metros de altura para jogar um belo futebol; aqui uma amostra), Gullit, Rijkaard, Baresi, Costacurta, Maldini, Ancelotti ainda jovem e o esquema tático inovador de Sachhi – a marcação por zona – dominaram meu ideário do futebol (a coisa mais importante da vida) até Felipão restabelecer meu terroir gaúcho. Sacchi foi um personagem contraditório, polêmico e quase folclórico (treinando a Azzurra utilizou 77 jogadores em 53 partidas e jamais repetiu a mesma escalação), mas foi capaz de acrescentar algo a uma cultura futebolística hostil à novidade. Dizem aqui que Sacchi “matou o catenaccio“, o que já é um grande feito. | Juliano Bruni

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Outrora rico

A derrocada italiana na Champions League foi lida de forma competente pelo único grande clube do país que não a disputava nesta edição. O milanista Adriano Galliani, presidente em substituição a Berlusconi (não que precisasse realmente, já que este é onipresente, da Sicília ao Vale D’Aosta), afirmou que os resultados em campo refletem a organização do futebol nacional de Inglaterra e Itália. Não reinventou a roda, mas citou os estádios repletos e bonitos, os muitos grandes jogadores e a saúde financeira dos clubes da terra do Oasis. Nem precisou lembrar, portanto, as arquibancadas de estádios decrépitos cada vez mais vazias nos campos da Bota, os escândalos, sem falar da neurótica psicologia do futebol daqui: existe uma verdadeira psicose coletiva na análise da arbitragem, nos supostos “esquemas” de favorecimento para determinadas agremiações, e até na confecção da tabela. Penso que, como brasileiro, esse choque de cultura futebolística não seria tão grave, não tivesse lido o já referido Calcio, história do esporte que fez a Itália, do historiador inglês John Foot. Esse comportamento remonta às origens do calcio e dificilmente mudará. Recentemente a própria imprensa esportiva, na figura da laboriosa redação esportiva da RAI Due, deu-se conta da histeria – eles chamaram de “maneira como encaramos o jogo” – e produziram uma série de matérias sobre como é tratada a questão do juiz nas ligas “ricas” da Alemanha (o eterno ponto de referência italiano), Inglaterra e Espanha, além do aspecto administrativo e comercial. Concluíram que sim, talvez a “maneira de encarar” os erros arbitrais aqui seja demasiadamente carregada e negativa. Verdade, parece que isso se reflete na presença de público, que, não temos como contestar, anda mal, etc.

Parece mentira, mas após a “desclassificação honrada” da Juventus, da “falta de sorte romana” e da “óbvia superioridade” adversária da qual foi vítima a Inter fala-se aqui como normalmente explicamos uma derrota sul-americana em um Mundial Interclubes frente aos europeus ricos e estruturados: coisa natural e previsível, na qual a verdadeira apoteose seria o sucesso italiano. Acabo de ver uma bela entrevista de Arrigo Sacchi na tv em que disse literalmente: “colhemos o que semeamos”. Confesso que estranho esse comportamento, profundamente. O “complexo de vira-lata” sente-se também fora de campo: independentemente dos valores, o “fico” de Kaká foi reverenciado pela mídia. O outrora riquíssimo futebol da Itália viu-se durante uma longa semana com a respiração suspensa, esperando a palavra final do craque brasileiro ao convite do Manchester… City. Evidentemente, qualquer clube do planeta pode-se ver refém de um sheik árabe enlouquecido e sedento de glória futebolística. Mas fato é que a potencial vítima de sua vontade de gastar milhões deva ser, necessariamente, atrativa – sob diversos aspectos, não apenas esportivos (no decênio passado, o filho do líder líbio Ghedafi comprou parte da Juventus, mas duvido que repetiria a tática hoje). Não estou defendendo a posse de clubes tradicionais de futebol por qualquer um que tenha na conta alguns milhares, pelo contrário. Porém não se pode ignorar que o nível de business no futebol moderno indique uma, digamos, atratabilidade. A Itália, a despeito do sucesso da Nazionale de 2006, parece estar condenada ao segundo escalão do futebol europeu. A menos que se faça alguma coisa. | Juliano Bruni

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Urgência Imigração

Não tenho parâmetros pessoais para julgar qual era a relação, aqui na Itália, entre imigrantes, italianos, imprensa e governo antes desta crise mundial. Quando cheguei, no final de outubro, o assunto já era esse há algum tempo. No entanto, tenho indícios retirados das atuais reações e dos textos publicados pela stampa italiana. O tema imigração é amplo e as abordagens, múltiplas. Trata-se de unanimidade, no entanto, que o problema existe e precisa ser enfrentado.

O governo Berlusconi, não surpreendentemente, escolheu a pior forma possível de responder à questão. Há duas semanas, a Câmara aprovou seu Pacote Segurança, quase todo de autoria da Lega Nord. Entre os pontos absurdos do texto, dois me parecem perigosamente reacionários. Foi aprovada a ronda dos citadinos, na qual um grupo de cidadãos, civis, poderá sair à noite pelas ruas das cidades italianas para fiscalizar, espreitar e denunciar. Civis com papel de polícia, mas sem seus poderes, obviamente sem permissão de usar armas. Embora alguns dispostos a rondar por aí já tenham declarado ter posse de arma. Os alvos preferidos, sem dúvida, serão mendigos e imigrantes. O risco dessa possibilidade de “vigilância” ser fonte de instrumentalização de partidos políticos é fortíssimo.

Outro ponto do Pacote: os médicos que atenderem imigrantes irregulares poderão denunciá-los às autoridades. Os espertos do governo acreditam que assim conseguirão expulsar os irregulares. Não passa pela cabeça deles que a maioria das pessoas simplesmente deixará de procurar os hospitais, arriscando a vida com medo de ser repatriada. Menos ainda eles pensam que muitos podem ser portadores de doenças contagiosas, colocando em risco um número muito maior de pessoas, que doenças não existentes na Itália sejam trazidas e disseminadas. Além disso, existe a real probabilidade de que se forme uma rede sanitária paralela sem nenhum tipo de controle estatal.

À rebelião dos médicos contra a medida, o ministro do Interior, Roberto Maroni, respondeu que “em TODOS os países da Europa existe a situação que queremos introduzir”. Na TV, nenhuma desmentida, ninguém ousou desdizer o ministro. Um jornalista do l’Unità, no entanto, resolveu conferir a informação de Maroni. Em sete dos principais países do Velho Continente – França, Reino Unido, Espanha, Bélgica, Holanda, Portugal e, até o momento, Itália – não existe a possibilidade para os médicos de desrespeitarem o segredo profissional denunciando irregulares. Formalmente diferente é a Alemanha, onde uma lei de 2004 obriga os “escritórios públicos” a informar as autoridades sobre estrangeiros irregulares. Porém, mesmo se os hospitais sejam considerados “escritórios públicos”, os médicos são protegidos por seu código profissional. Ou seja, um irregular que vai a um médico privado de uma associação de proteção dos direitos dos estrangeiros não corre nenhum risco. Mesmo nos hospitais alemães, segundo a Cruz Vermelha, não há nenhum caso de médico que tenha desrespeitado seu código deontológico para denunciar um imigrante cladestino.

O Pacote Segurança é apenas uma das medidas de repressão do governo. Depois, há a morosidade inacreditável em relação à regulação dos imigrantes e o medo dos italianos para com os imigrantes e o incentivo a esse temor por parte da televisão. Qualquer sondagem sobre imigração recolhe resultados muito negativos em relação ao estrangeiro. No entanto, as pesquisas com foco local, relacionada a situações pessoais, mostram o contrário. É como se dissessem: “os imigrantes são uma ameaça, mas os que eu conheço são pessoas de bem”.

A crise aumenta a sensação de insegurança. E ela não é só econômica, mas também social. Em momentos assim, fica fácil encontrar um bode expiatório. Nesse caso, o lado mais fraco da corda é o imigrante, e não só o irregular. | Veridiana Dalla Vecchia

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Eu já sabia II

“Folza Plato!” A torcida da Fiorentina ironiza a grande comunidade chinesa residente na cidade rival no clássico toscano contra o Prato, temporada 2002-2003.

“Andatevene senza fretta, potete votare anche domani” [Vão sem pressa, podem votar amanhã também]. Faixa da torcida da Lazio endereçada à comunidade judaica em 1994, quando as eleições políticas foram marcadas para dois dias afim de de não coincidir com o ano-novo judaico.

“Uno di noi, mille di voi” [Um de nós, mil de vocês]. Autoironia da pequena torcida do Siena em jogos fora de casa, 2003.

“Non sappiamo più come insultarvi.” [Não sabemos mais como lhes insultar]. Sinceridade absoluta dos indignados ultràs da Inter, em faixa endereçada à própria squadra, 2004.

“Giulietta è ’na zoccola” [Julieta é uma ratazana]. Resposta culturalmente razoável da torcida napolitana aos torcedores do Verona que expuseram a faixa “Vesuvio facci sognare” [Vesúvio: faça-nos sonhar]. A Julieta em questão é aquela mesma: a jovem veronesa enamorada de Romeu. | Juliano Bruni

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