Archivi del mese: febbraio 2009

Vivo em um país fascista

A Itália sofre com um problema que se arrasta, grosso modo, há 150 anos – ou seja, desde sua unificação – mas especialmente desde o fim da Segunda Guerra. Quando Garibaldi entregou o território a Cavour, da Sicília ao Piemonte, o novo país teve de se confrontar com as diferenças internas. Harmonizar tudo não foi fácil, prova que até hoje se pena em dizer que a Itália é um país coeso. Logo depois veio Mussolini e a Itália se identificou ao extremo com o fascismo. Melhor dizendo, o fascismo surgiu de uma leitura do caráter do país recém unificado, daí sua entrada triunfal no inconsciente coletivo quando entregue por uma figura carismática. O título deste texto é bem explicado pelo fato que a Itália não perdeu a guerra. E isto é um problema. O fascismo não foi derrotado como seu primo alemão. Na Itália os fascistas têm um direito de existência impensável em relação à Alemanha derrotada – e envergonhada pelo nazismo. Evidentemente existiu, e existe, a Resistênica (uma das mais corajosas da história recente). Mas a mentalidade italiana permite a manutenção de certas tacanhices, e somos obrigados a rever rondas de cidadãos, turbas prontas a linchar estupradores – estrangeiros – em frente às delegacias, preconceitos sem fim em relação ao diverso, partidos de teor nazista ocupando cargos de governo, explicações simplistas e convenientes, perseguições. Tensão e ódio. Como diria um perfeito comentarista televisivo, especialista em amenizar as coisas, “o momento do país não é bom”. | Juliano Bruni

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Eu já sabia I

Em qualquer partida do futebol italiano, das séries menores à primeira divisão, estarão lá, entre os torcedores. Pequenos cartazes ou imensas faixas. As striscione são tradição cultural do calcio, muitas para o bem e igualmente muitas para o mal. Da leitura do excelente Calcio 1898-2007 , a história do esporte que fez a Itália, do historiador inglês John Foot, alguns positivos exemplares, pequenas demonstrações da presença de espírito italiana – como o célebre “Eu já sabia” da torcida esmeraldina de Caxias, nascido no 4-0 juventudino sobre o Inter, em pleno Beira-Rio, há exatos dez anos.

“Siamo tutti parruchieri” [Somos todos cabeleireiros]. Protesto irônico dos torcedores da Fiorentina por ocasião de uma partida disputada numa segunda-feira à noite na temporada 2000-2001, com o estádio semi-vazio. Às segundas-feiras os cabeleireiros italianos não abrem as portas.

“Questo calcio ci fa Sky-fo” [Este futebol nos dá “schifo”, que lê-se “squifo”, nojo em italiano]. Brincadeira lingüística em vários estádios para protestar contra o poder da tv no futebol, temporada 2003-2004.

“Vi invidiamo il panorama [Lhes invejamos o panorama]. A siciliana Messina e a calabresa Reggio Calabria situam-se uma ao lado da outra, separadas pelo estreito da Sicília e ambas com a mesma vista privilegiada para o monte Etna.

O pequeno Chievo Verona atinge o quarto lugar na temporada 2000-2001, conquistando uma improvável classificação para a Champions League, o que fez despertar a pertinente dúvida entre os tifosi: “Come si scrive Cempions Lig?”.

Os torcedores do pequeníssimo Fano parecem orgulhosos do “sucesso” futebolístico de sua squadra. Mai stati in B” [Nunca estivemos na B]. Jamais superou a Série C. | Juliano Bruni

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Marx e a Ciência

Passeando por Padova numa manhã cinzenta deste inverno, eu e o Ju fomos abordados por uma ragazza que tentava arregimentar pessoas a fim de participarem de uma reunião. O encontro era organizado pelo Lotta Comunista, partido cinquentenário, sem representação do parlamento italiano, mas presente em todo o território nacional e com escritório na França. Depois de uma simpática insistência da parte dela, ficamos de pensar e ela nos ligaria para saber a resposta. Resolvemos ir. A sede do partido em Padova é bem estruturada. Fica no térreo de um prédio residêncial e é formada por uma pequena biblioteca que se localiza junto à recepção, uma sala de reuniões com capacidade para 50 pessoas, um grande escritório com talvez cinco computadores (não consegui ver a sala inteira) e outras pequenas salas. Entre os livros expostos, Marx e Lenin tinham destaque. Além desses, podia-se encontrar outros muitos teóricos comunitas, livros de História, o anarquista Bakunin e autores italianos.

O palestrante, que por sinal não se apresentou, começou seu discurso. O tema do encontro era “A força da ciência contra a mentira da ideologia”. Iniciou falando sobre a crise, apresentando dados, traçando paralelos. Expôs as falhas naturais do capitalismo, a luta entre burguesia e proletariado. “Não significa que todo burguês é mau e todo o proletário é bom. Não estamos fazendo julgamentos morais”, repetiu algumas vezes, completando que o ponto fundamental era a natureza do trabalho capitalista, patrão versus empregado. Na platéia, que deveria ser formada por mais de 40 pessoas, atenção total. Embora não concordasse com tudo o que era dito, estava contente de ver pessoas unidas em busca de respostas. Então o palestrante cometeu o erro mais corriqueiro e sem fundamento que a esquerda insiste em perpetuar. “Nosso partido é o único capaz…”

Como assim “nosso partido é o único capaz”? O Lotta Comunista acredita que suas bases (a análise do trabalho de Karl Marx) são científicas. Se marxismo é ciência, trata-se em princípio de Verdade e, portanto, incontestável. Não estou negando a grande colaboração de Marx para o entendimento da sociedade, mas não se pode tomar toda sua obra como irrefutável. Concordo com Noam Chomsky quando diz que o marxismo é quase uma religião. O linguísta americano sustenta que Marx introduziou conceitos que toda pessoa racional deveria conhecer e utilizar, noções como classe e relação de produção. Por outro lado, o marxismo supõe que existam leis históricas e econômicas para o desenvolvimento da humanidade. “Só o que posso dizer é que estas leis não entendo. Não porque eu conheça leis melhores, mas porque acredito que na História não existam leis.” A frase é de Chomsky, mas poderia ser minha.

O Lotta Comunista, ao que me parece, repete o comportamento de isolamento e auto-suficiência de outros tantos partidos de esquerda. Não sei se tem algum futuro se continuar com sua rígida noção de “cabeça pensante do proletariado”. Ao mesmo tempo, quando não mais acreditar nisso deixará de ser o que é, um partido marxista-leninista. | Veridiana Dalla Vecchia

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Italianos e imigrantes

Reuniam-se de forma desordenada e bastante calma em frente ao alto portão de metal da entrada lateral da Questura, a delegacia de polícia da cidade, responsável pela burocracia de imigração em Padova. Estávamos ali para dar cabo do último trâmite, a cereja do bolo que nos permitirá residir na Itália sem dever nada a ninguém. Buscávamos apenas uma informação acerca do elenco de documentos que precisaríamos apresentar numa outra oportunidade. As outras tantas pessoas estavam lá, parece, por problemas um tanto mais intrincados e após um período de espera procuravam explicar suas angústias ao funcionário – já bastante impaciente, mas que visivelmente procurava manter a educação. Também ele tinha um problema grave a resolver: justamente aquelas pessoas que se acotovelavam na pequena abertura de onde surgiu.

Diria-se tratar de uma pequena reunião da ONU. Eram cerca de uma dúzia, talvez mais. Havia o representante africano: sério, ameaçador até, metido dentro de uma jaqueta enorme e com a postura desleixada. Era um jovem ganês, de nome complicado composto de alguns “M” e “O”, um “B” e vários “W”. Balançou rapidamente uma folha de papel para o funcionário e não consegui saber exatamente como se chamava. Não falava uma única palavra em italiano, que também não compreendia. O policial explicou-lhe as dúvidas em inglês. O ganês balançou a cabeça tristemente, seu semblante era desolado, e foi embora. Um jovem bengalês, quase certamente um indiano, era o único que movia-se. Caminhava tranqüilo, as mãos atrás das costas e o olhar sóbrio. Aproximaram-se ainda três rapazes altos, magrebinos (marroquinos, segundo me sugerem as estatísticas), que falavam o áspero árabe contidamente. Não pareciam preocupados.

Evidentemente o grupo mais visualmente representativo era o proveniente da China. Quando nos unimos à pequena multidão, metade da manhã já, reinava o silêncio, mas logo um chinês desembainhou o celular (nove entre dez imigrantes falam ao celular nas ruas) e despejou uma quantidade incrível de fonemas particularmente chineses. Fosse um ocidental, diríamos que balbuciava sem conseguir completar o discurso que tinha em mente. Era um homem de meia-idade, trajava roupas conflituosas entre si (camisa amarelo creme, uma sinistra jaqueta escura, calça azul, meias rosas), mas não parecia pobre. Segurava uma pasta executiva de couro marrom barato (talvez chinês), e estava acompanhado da família. Todos muito tranqüilos, como se não dependessem do lugar onde estavam – a Europa, a Itália e a questura. A mulher era mais jovem e as crianças divertiam-se olhando o entorno sem fitar ninguém.

Somente então – após perceber in loco como o mundo é grande e a Humanidade variada – é que me apercebi do maior contingente ali presente. Eram os Europeus do Leste, como chamam-os aqui. Aspecto decisivamente eslavo, mesmo que eu procurasse animadamente um romeno, talvez para puxar conversa. Eram os corporalmente mais resignados: as mulheres estáticas, uma mão segurando a outra em frente ao peito, cabeça coberta por lenços ou cabelos. Não se moviam. Os homens, também estáticos, apenas giravam a cabeça a fim de ver o que acontecia. Particularmente um senhor já passado dos seus 50 anos parecia familiarizado com o contexto e exibia uma destreza singular para a situação: analisava os outros. Foi o que se deteve mais tempo a nos avaliar, com um meio sorriso escondido sob o bigode preto. Em geral, têm olhos tristes, essa gente. Exceção feita, em todos os sentidos, a um jovem casal. Ambos altos, ele com um cabelo tipo militar, jaqueta branca, ela com um penteado bastante volumoso, vaidosamente vestida, uma bolsa rosa a tira-colo.

Ao chegarmos, quase a totalidade de olhos – tristes, rebeldes e curiosos – convergiram para nós. Muito mais para a Veri, por razões óbvias, sabendo que ali, além de uma mulher muito bela, estava uma cidadã italiana. Ninguém mais ali parecia cidadão italiano. Isso não gerou desconforto algum, mas se lia na expressão facial das pessoas. Esperamos por uma dezena de minutos e então surgiu o funcionário. Logo a turba aproximou-se demasiadamente. Estávamos mais atrás, respeitando uma teórica fila por ordem de chegada. Não havia fila, mas deveria haver ordem, pois colocaram-se ordenadamente, um após o outro, a explicar ao policial por quê estavam ali. Ele dirigia algumas perguntas tensas às pessoas e assim suas histórias tornavam-se conhecidas do grupo.

O jovem ganês não falava italiano, mas deveria retornar portando os documentos certos, mais cedo, amanhã. O chinês estava com a sua documentação absolutamente regularizada (“tutto a posto, tutto a posto”, repetia insistentemente), mas trouxera a família para pôr tudo nos conformes: dentro. O pequeno indiano de olhos semiserrados alcançou um papel ao policial e ganhou igual e cortezmente o direito de entrar. O observador senhor eslavo de bigode expressou-se num italiano bastante satisfatório, o que agradou ao funcionário da lei, mas seu problema deveria ser encaminhado de outra forma, amanhã. A total incapacidade de compreender as perguntas fez um pequeno grupo de chinesas enervar o policial. Era a vez de uma senhora russa, que gostaria muito de regularizar a situação da filha, já há dois meses na Itália. A pequenina mulher perguntou sobre visto de estudo. A resposta foi óbvia: o visto deveria ter sido expedido ainda na Rússia, se fosse esse o real motivo da vinda, o que entrava em conflito com o fato dela já estar em solo italiano. Uma simpática moldava – exultei, afinal os moldavos são irmãos apartados dos romenos -, de idade avançada e de cabeça escondida por uma tôca, desejava saber o que precisaria fazer para que seu marido, ainda no país natal, se juntasse a ela. Havia burocraticamente sido mandada ali em busca de informação, mas foi mandada de volta para onde veio. Deu de ombros e com o mesmo olhar triste foi embora. Agora estava falando uma pequena família, cuja mulher mais jovem tinha a cidadania italiana mas parecia confusa. Tudo esclarecido, mas faltava um papel. Amanhã…

Ainda restava um pequeno grupo em torno do policial. A Veri lhe perguntou o que queríamos saber e a atitude do funcionário alterou-se, tornou-se mais doce, plenamente educado e calmo. A única centelha de bom-humor daquela situação toda se deu na nossa conversa. Olhava serenamente para mim e para a Veri. Parecia contente em ajudar. Ele fez questão de esclarecer bem o que um cidadão italiano precisava saber. | Juliano Bruni

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“Quem aplaude não sabe nada”

Como qualquer partido tematicamente desenhado e por isso mesmo restrito, a Lega Nord – um grupo tacanha de distintos senhores de ternos sempre alinhados, cabelos muito conservadores e penteados e ridículas gravatas e lenços verdes, a cor do partido – angaria má vontade entre aqueles que não querem ver a Itália cortada ao meio, divida em “norte rico e valoroso” e “sul pobre e sanguessuga”. A Lega defende a identidade, digamos, celta da Padania (a região do vale do Pó) e cobra do governo que integra – e que por vezes manipula – um distanciamento de Roma em benefício da região setentrional da Bota. Querem mesmo é a “independência”, mas, como isso é decididamente difícil já que Berlusconi não é a favor, contentam-se com o federalismo fiscal, recém aprovado no Senado. Umberto Bossi – o líder supremo, um homem um tanto sinistro, modos brutais, barrigudo, de olhar semicerrado e grandes óculos (como se uma coisa compensasse a outra) – é do tipo que tem desfaçatez suficiente para ameaçar uma guerra, dessas de verdade, dizendo contar com cerca de 300 mil homens “de prontidão”, ao que Berlusconi teve de correr a jogar panos quentes. Num país governado por um bonachão, não seria de surpreender o apoio de 10% da população a um partido fascista, quase nazista. Mas decididamente resta por compreender como uma localidade como Lampedusa, uma ilha meridional da Sicília, elege uma leghista como vice-prefeita.

Num dos tantos programas repleto de platéia, tivemos mais uma das tantas demonstrações do ridículo papel exercido pela Lega na política italiana. Um espetáculo triste, mas que esconde uma potencial esperança. Discutiam alla italiana o ministro leghista Castelli, obviamente nortista, “comedor de polenta” segundo o próprio, e o performático napolitano Di Pietro, fundador do próprio partido (comportamento, diga-se, à brasileira), o Italia dei Valori, de centro. O tema era o federalismo, ao que, como previsto, o ministro-gravata-verde acrescentou que o Sul esgotava economica e “fiscalmente” o país. Di Pietro, que tem inúmeros defeitos mas o mérito de sempre tentar trazer a discussão de volta ao plano nacional (já havia triturado um leghista em outro programa, dias antes), constrói como de costume uma frase de efeito, ainda que verdadeira, desmonta o adversário e o público demonstra apoio. Um apoio óbvio, já que a partilha pretendida pela Lega não encontra eco na população. O aplauso incomoda Castelli. “Quem aplaude não sabe nada.” Risos. Gravata-verde se agita na cadeira e desfia uma infinidade de argumentos, quase todos baseados na dicotomia norte-sul. “É assim, quem quiser que aplauda e ria.” Larga o peso na poltrona, balançando a cabeça e balbuciando sozinho. | Juliano Bruni

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Portello

Moramos exatamente em frente a umas das velhas portas da cidade antiga propriamente dita, aquele espaço defendido pelas sólidas muralhas. O Portello é uma estrutura grande, assemelhado a um arco do triunfo, com um corredor largo. A parede externa é muito mais ornamentada que a interna, talvez para impressionar os visitantes, uma vez que essa era a entrada mais movimentada de Padova: o Leão de São Marcos, indispensável, lembra de forma imponente o poder veneziano do qual a cidade dependia e diversos nomes explicam didaticamente a estrutura desse mesmo poder. Por aqui chegava e partia um grande número de pessoas nas dezenas de embarcações que faziam o transporte de e até Veneza. Eram homens de negócios os que enchiam as margens do Piovego, o grande canal pelo qual se navega tranqüilamente até a Sereníssima. A região Portello era então a mais popular de Padova, as imediações repletas de traseuntes e do staff das companhias de navegação. Nossa rua – o traçado acompanhando o da muralha – homenageia Leonardo Loredan, grande doge veneziano protetor de Padova, que tem o nome grafado pomposamente nas paredes da porta. A Porta Portello é parte do odierno itinerário cultural e turístico, a mais importante atração da região oriental da cidade.

Tudo isso diz respeito à grande República Veneziana, quatro ou cinco séculos atrás. Hoje o bairro Portello é um imenso quarteirão universitário, com os prós e contras que isso determina. Ainda é possível navegar sobre o canal, mas suas águas (aos pés das muralhas) servem quase exclusivamente como uma memória. Veneza – e Padova, por conseqüência – deve muito de sua glória às águas e isso, parece, não será jamais esquecido aqui. | Juliano Bruni

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Enfim, em casa

Já há um mês, completado ontem, podemos dizer que alcançamos nosso destino. Deixamos a pequenina Sovizzo para trás e agora podemos chamar Padova de nossa casa. Um pequeno mas agradabilíssimo apartamento, não mais compatriotas falando português à volta, distâncias relativamente grandes a percorrer. Parece que, enfim, chegamos e podemos dar início à nova vida – depois de alguns trâmites burocráticos ainda pendentes, mas que não restringem a alegria de estar na cidade que amávamos ainda por fotografias. | Juliano Bruni

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