Archivi del mese: dicembre 2008

Terremoto

A terra tremeu em Sovizzo ontem. Não percebi, mas tremeu. Na tarde de névoa cerrada e fria o suficiente pra me contentar, saí por isso mesmo sozinho para fazer algumas fotos. Provavelmente estava sobre a linha de fundo do campo de futebol próximo à nossa casa quando o terremoto de 5.2 pontos na escala Richter, com epicentro próximo a Parma, na Emilia- Romagna, agitou várias cidades italianas e a louça de casa, segundo me contou a Veri. O noticiário das 18 horas confirmou a seriedade do tremor. Uma igreja parmigiana veio abaixo, mas ninguém se feriu – ali ou em qualquer outro ponto da Bota. Milão e Gênova, a centenas de quilômetros sentiram. Eu não. Uma pena, nunca vi nada parecido. Minutos antes de escrever essas linhas um novo abalo, conseqüência natural do primeiro, mas de novo nada percebi. | Juliano Bruni

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Eleitor de esquerda e eleitor de direita

Interessantes dois textos que leio no jornal italiano mais competente até agora, o l’Unità que Gramsci fundou em 1924, como a própria publicação orgulha-se de estampar na primeira página. O escritor Vincenzo Cerami inicia assim uma coluna na edição do último domingo: “Quando um político de direita rouba, os eleitores de direita o premiam. Quando rouba um político de esquerda, os eleitores de esquerda não vão votar, e premiam os ladrões de direita. Em resumo, os furtos, em qualquer âmbito em que aconteçam, sempre fazem bem à direita. Por isso é difícil debelar-la.” Claro que trata-se de um exagero pensado. Cerami não faz da esquerda, no contexto e num confronto direto com sua antagonista, um mar de rosas. Mas faz sentido a sugestão de suas palavras no que diz respeito ao mecanismo da coisa, ao menos para a política italiana, muito mais “maniqueísta” que outras. E, de resto, capta bem o estado de ânimo do eleitorado de esquerda, não apenas da Itália, me parece, mas europeu.

Cerami certamente leu a seção de cartas de l’Unità do último dia 18, quinta-feira (algo me diz que foi dali que tirou a inspiração para todo o seu raciocínio). Roberto Poletti assina uma carta intitulada “O eleitor de esquerda não está habituado a isso”, onde afirma que o eleitor de direita está “preparado a justificar” as incoerências de seus representantes. “O eleitor de esquerda, ao contrário, é muito menos superficial. Está pronto inclusive a não sustentar a causa se muito indignado.” Pode ser que ambas sejam visões românticas da esquerda italiana – a propósito, uma das esquerdas mais eficientes e sinceras do mundo, como nos mostra o caminho trilhado pelo país desde a Segunda Guerra. Mas de qualquer forma dá uma interpretação não muito longe da realidade. Falamos de um país antigo e rico e por isso pensar com a lógica brasileira não funciona. Aqui, na maior parte das vezes, se vota por ideologia mesmo. | Juliano Bruni

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Deriva I: o apóstolo negro

deriva11O mestre favorito fala das derivas, o vagar sem rumo definido, despreocupado mas atento. Mesmo postergando muitascoisas desde a chegada, a deriva é questão de saúde mental, e não foi sonegada. Os resultados – aleatórios e sem compromissos – serão constantes aqui. A deriva é fonte de saber e prazer.

Foi já na enésima deriva em terras italianas que encontrei este homem. Parecia descolado da paisagem, no centro nevrálgico de Vicenza que é a Piazza dei Signori, apinhada de gente. Era o último final de semana antes do Natal. Fincou-se entre as duas colunas, que sustentam o leão veneziano e uma antiga personalidade eminente – que, talvez, fossem seus únicos ouvintes. Falava um italiano carregado de alguma língua africana. Baixava seguidamente os olhos para a pequena Bíblia que segurava, lia um trecho. Pois eu sou a Verdade… “Ele é a verdade, meus amigos.” Ficou lá, o apóstolo negro, soterrado no burburinho da praça em festa. | Juliano Bruni

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Considerações sobre o calcio

Esse blog reproduz futebolisticamente o Derby d’Italia. Eu bianconero, e a Veri, de forma suspeita e ainda insegura, pensa ser nerazurra. Juventus e Inter fazem o mais importante clássico italiano, de rivalidade que remonta aos primeiros tempos do calcio e à formação da identidade do país. O Milan se intromete com a sua grandeza, mas ainda assim fica de lado na grande rivalidade entre os dois principais centros do futebol na Bota, Turim e Milão. Isso porque a percepção do italiano – e do europeu em geral – sobre a “grandeza” no futebol é bastante diversa da sul-americana. Isso fica bastante claro num clássico como o número 2 da Itália, Juve x Milan. Os bianconeri são 27 vezes campeões nacionais (uma dezena de títulos a mais que o Milan e 11 em relação à Inter) e duas continentais e mundiais. Os rossoneri conquistaram sete vezes a Europa e quatro o mundo (é o maior vencedor de copas da história). Apesar da diferença de “grandezas”, são iguais e se tratam assim. Por isso a vitória de domingo significou tanto para a Juve. O placar, e o próprio jogo em si, deram o contorno dramático que normalmente encontros assim têm e a partida de domingo último, dizem os jornais e a opinião em geral, já entrou para a história.

Ainda não pisei em um estádio italiano – o que muito me entristece – e gostaria que isso acontecesse no meu estádio, o Olímpico de Turim (por sinal, em vias de aposentadoria: tanto Grêmio como Juve partilham o nome de seus estádios e ambos falam ao mesmo tempo em casas novas). A distância provavelmente fará com que seja outro, o que não atrapalha, contanto que aconteça. Sei que o futebol é um assunto estranho e por vezes indesejado dentro do meu círculo social (parte dele está lendo fielmente este blog). Sempre foi assim. Mas escreverei constantemente a respeito, por coerência a mim mesmo e ao país onde vivo e àquele de onde vim. | Juliano Bruni

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O exército e a guerra simbólica

A propósito da inconveniência do futebol como assunto e paixão, muito me ajudou o grande jornalista italiano Indro Montanelli (autor de uma estupenda História da Itália, dos gregos a Mussolini, junto com o jovem historiador Roberto Gervaso). O colega toscano defendeu um raciocínio bastante interessante sobre a natureza psicológica e a índole italiana. Ao analisar o final da Idade Média na península no livro A Itália dos séculos de ouro, Montanelli aborda a situação geopolítica italiana explicando que os diversos “reinos” há muito faziam uso de milícias estrangeiras, mercenários que lutavam por uma cidade contra a outra, muitas vezes trocando de lado durante a batalha. Engajavam-se por dinheiro, está muito claro, e há histórias fantásticas de condottieri ingleses, franceses, alemães. À parte dessa opção estava a Sereníssima República de Veneza, talvez a única a criar uma força legitimamente “nacional”. Mas o fazia apenas no mar, que era o seu reino. Em terra, quando dedicou-se a conquistá-la, recorreu à mesma tática.

Essa atitude por parte dos reinos italianos, defende Montanelli, criou um vácuo na moral nacional de então, basicamente por terem “tornado imbeles os italianos”, destruindo um “sentido que os exércitos nacionais mantêm vivos”. Dessa forma, ainda o diz Montanelli, o povo italiano, retalhado numa galáxia de pequenos potentados, “nunca soubera o que fosse pátria, honra, lealdade, pela simples razão de que lhe faltara a arena onde treinar essas virtudes”. Uma crítica cristalina à lógica e à moral maquiavélica, que cita na mesma obra como contraponto ao que acredita ser justo ou ideal: “Como bom italiano da Renascença, ele [Maquiavel] considerava plenamente legítimo o delito cometido por ‘razão de Estado’”.

É isso que – de forma absolutamente metafórica – vejo no futebol: a tal arena para exercitar certos bons valores. Como guerra simbólica, o jogo reproduz não só a disputa, mas também aquilo que é preciso para vencer a disputa: honra, lealdade, colaboração. Montanelli explicita sua opinião de que talvez a guerra valesse de algo para fazer homens melhores no sentido moral – num momento histórico específico, no qual não existia a opção de não guerrear. Agora que podemos (e devemos) pensar em evitar a guerra a qualquer custo, podemos nos entregar a simulacros que produzam aquilo que o jornalista tinha em mente. O futebol se presta a isso. Para Montanelli, a existência e o sucesso de um Maquiavel só é concebível onde existe uma lacuna ética. “A Itália é o paraíso dos condottieri porque não tem ‘soldados’. Mas um país sem soldados também é um país sem ‘cidadãos’.” O futebol como exercício ético poderia nos ajudar a atingir o objetivo distante do grande Montanelli. | Juliano Bruni

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Chuva

Falo com o conhecimento das estações gaúchas e um claro amor ao frio e à chuva. Mas jamais vi tanta água cair do céu como aqui. Desde que chegamos, as semanas de sol sempre foram incompletas e se resumem a uma ou duas. De resto, chuva impiedosa. Não uma garoa sutil, de gotas finas como fios de cabelos: a água despenca incessante, pesada. Conseguiu limitar nossa visita a Padova, ajudada pelo vento. Numa esquina da cidade, vimos depositados numa grande lixeira uma dezena de guarda-chuvas, vítimas da impiedosidade da natureza. Nos noticiários, os alertas sobre o clima se repetem. Neve no norte (mas que se esquiva da região onde estamos), destruição pelas águas nas cidades costeiras, rios a ponto de transbordar e Veneza literalmente debaixo d’água. Os meteorologistas, que parecem ter emprego estabilíssimo aqui na Itália, prometem frio e tão somente frio para o inverno que está por começar. A neve não seria de se desprezar como complemento. Ao menos cai macia e sutil. | Juliano Bruni

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Io parlo english ou Êimi Uainiáuz…zã

A Itália tem orgulho de sua língua, e faz muito bem, na minha opinião. O governo defende o uso oficial do italiano junto à União Européia, que atualmente redige seus textos apenas em inglês, francês e alemão. Ignorar o italiano é de uma falta de noção estética sem precedentes, mas isso é conversa para outro post. O que gostaria de enfatizar aqui é o fato de que, na Itália, a presença do inglês é talvez mais difusa que no Brasil, onde nos sentimos colonizados (quem se sente) pelo fato de havermos incorporado (e continuarmos incorporando) palavras desse idioma no nosso dia-a-dia. O jornal Libero dedicou um artigo muito interessante há algumas semanas sobre a questão – o título: “Stop ai weekend”, fazendo referência a dois dos vocábulos mais usados pelos italianos. No texto, o autor discute essa tendência de “preferir” o inglês para termos que encontram palavras italianas com a mesmíssima carga semântica. E esclarece alguns pontos interessantes, como a raiz grega do verbete stop (assim mesmo, no grego), matriz do italiano arcaico stoppare, ou seja, parar. O verbo caiu em desuso e quando nas esquinas vieram pintados grandes “Stop” muitos insurgiram-se contra o anglicismo – apesar de ser evidente que a sinalização de trânsito veio do poderio econômico do idioma de Shakespeare, o que justifica a contrariedade dos “latinistas”, e não da recuperação do italiano antigo.

À questão veio se juntar a grande imigração italiana rumo aos Estados Unidos. Há uma ligação fraternal, talvez por isso, entre os dois países (vou me ocupar dessa minha grande decepção em outro texto). Daí o uso de termos em inglês se difundir de boa vontade entre os habitantes da Bota, afinal muitos parentes estavam do lado de lá do Atlântico, ganhando a vida e falando inglês. Porém, do lado de cá do oceano… o italiano médio fala um inglês sofrível. Não me refiro à diferença de pronúncia entre o inglês americano e aquele britânico, muito mais polido e até bonito, mas sim ao mais elementar uso dos fonemas. O “H” anglo, por exemplo, aquele ríspido nasgo de ar que vem diretamente da garganta, jamais é pronunciado. O “W”, tão estranho às línguas latinas, muitas vezes é convertido diretamente em “V”, ignorando a variação que em inglês lhe dá o som de “U”. Como no nome daquele famoso diretor de cinema, pseudo-intelectual: Vúdi Álen. De forma natural, o italiano pronuncia muito claramente o final das palavras e para o inglês mantém a lógica, carregando na sílada final, lentamente acrescentando-lhe um rumor, algo como um “hã”.  Bizarro.

Dessa confusão, a conseqüência lógica é a deturpação, a avacalhação geral da língua inglesa. Prefiro o italiano, mas defendo o inglês (o britânico, somente o britânico) como uma língua sutilmente bonita, indigna de ser mal pronunciada. Não é como o alemão. Além de injusto, a inaptidão mostrada pelo italiano padrão para o idioma das Spice Girls obviamente origina monstros. Aqui na Itália, o sucesso do momento vem da Grã-Bretanha e de fato canta muitíssimo bem: Êimi Uainiáuz…zã. | Juliano Bruni

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