Archivi del mese: novembre 2008

Aula de calcio

Apesar de pequena, Sovizzo oferece três bons gramados de futebol de dimensões oficiais, ou quase. Num desses campos, o mais próximo de nossa casa, funciona uma escola de futebol, parceria do clube de futebol da cidade (o A.S.D. Sovizzo) com o Chievo Verona, hoje na Série A e um dos mais tradicionais clubes do Vêneto. Duas vezes por semana, sempre por volta das 18h30, noite escura já e temperatura ao redor dos 0º C, os refletores se acendem e os gritos do allenatore, o trilar do apito e as vozes juvenis se misturam. Freqüentei o campo algumas vezes, evidentemente, e dali tirei algumas lições.

Os guris italianos não servem para “pernas-de-pau”. Claro que eu não tinha exatamente essa noção em mente, sou um defensor do calcio, mas sinceramente não esperava que tivessem a desenvoltura que vi. São incentivados a tentarem jogadas individuais, mas não a fazer “firulas”. Chamou minha atenção a disciplina tática dos jovenzinhos. O treinador, muito sério mas acessível, explicava a toda hora a importância de “se fazer o que deveria ser feito”. E o que deveria estar sendo feito é marcar; procurar o companheiro; não tentar jogadas lotéricas; jogar de cabeça erguida; não desistir. O que mais me impressionou, no entanto, foram os fundamentos: passes e cabeceios precisos, mas sobretudo chutes. Em treinamentos específicos, os guris deveriam tentar o arremate sempre a partir de uns três a quatro metros fora da grande área. Quase invariavelmente, os chutes chegavam à meta. Não é de impressionar, portanto, que o talvez maior ídolo italiano no momento seja Alessandro Del Piero. Nas últimas semanas decidiu três partidas em arremates de longa distância. No geral, essa bucólica aula de futebol ao pé dos Alpes me mostrou mais claramente porque na camisa azzurra brilham quatro estrelas.

A propósito: sempre tive uma determinada intuição acerca da paixão dos povos pelo futebol e me arrisquei a estabelecer até uma hierarquia de acordo com o “amor ao jogo”. Jamais prossegui além do terceiro lugar, o dos brasileiros, ficando o primeiro (muito à frente) com os ingleses e em segundo os argentinos. Tenho conhecimento da absoluta devoção dos mexicanos, por exemplo. Mas, como nunca fui ao México, o quarto posto fica com os italianos, que veneram o calcio de uma forma inédita para mim. | Juliano Bruni

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Onde vai a Pringles?

No início de 2008, o mundo viu explodir na Itália o que foi chamado de Caos Rifiuti, ou seja, caos do lixo. Verdade que foi uma situação emergencial em Nápoles, portanto bem específica, mas a questão do lixo é, no mínimo, algo bem complexo. Não há problemas com o recolhimento aqui no Vêneto e no centro-norte como um todo. Todos os dias (exceto domingo) o serviço funciona ainda pela manhã e de forma bastante silenciosa. O elemento complicador está ainda dentro de casa: a seleção do lixo. Basicamente, a separação obedece cinco critérios. “Papel” e “plástico” são fáceis de compreender. “Lixo úmido” é o que chamaríamos de orgânico. Vidros e latinhas não são recolhidos, devem ser depositados pelos próprios cidadãos em pontos de coleta espalhados pela cidade. Pode-se ver o lado bom de sair de casa carregado de sacolas ruidosas com dezenas de garrafas e latas, ainda que o frio beire os 0º C: caminha-se, e esse é um hábito saudável.

O problema é que “lixo seco”, de onde viemos (Porto Alegre, uma cidade modelo no quesito tratamento do lixo), deveria compreender já o papel e o plástico, o alumínio e o vidro. E outras coisas mais. Seco, aqui, é qualquer coisa não-reciclável, mas que ao mesmo tempo não deve estar misturada junto àquilo que se enquadra nos outros tipos de lixo. Resultado óbvio: reclamação dos lixeiros, que não recolhem o lixo “misturado”, e confusão das pessoas. Nunca se sabe onde raios deve ser colocada uma embalagem de Pringles, por exemplo. | Juliano Bruni

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Sovizzo

Milão nos surpreendeu nos escassos 40 minutos que levamos de uma ponta à outra da cidade quando da chegada no aeroporto de Malpensa: é uma grande metrópole, mas, contrariamente à nossa imaginação, é aprazível, organizada, movimentada e obviamente elegante. No passeio que faríamos ali quase um mês depois de desembarcar, a capital econômica da Itália se revelaria ainda mais agradável. Até essa visita, no entanto, deveríamos entrar em contato com algo bem mais simples.

Sovizzo é nossa casa provisória enquanto durar o processo de cidadania. Fica bem ao lado de Vicenza, uma das sete capitais de província da região do Vêneto – que, por resolução conjunta e muita insistência da Veri, deveria ser onde fixaríamos residência por questão cultural (ainda enfrentamos a insistência de amigos que querem nos ver na Lombardia).

De qualquer forma, Sovizzo é uma cidade agradável. A primeira diferença em relação ao urbanismo de Porto Alegre são as calçadas: à exceção das principais vias, as ruas dispõem apenas de calçada em um dos lados. Ainda assim é possível caminhar no lado oposto, sobre a via. A marciapiede não conta mais de um metro e meio, mas essa dimensão não gera qualquer problema entre pedestres e motoristas. O asfalto não é azul-petróleo como o do Brasil. A pavimentação das vias são de um branco-acinzentado, de textura bem mais áspera.

Sovizzo tem, oficialmente, seis mil e quinhentos habitantes, o que faz dela uma cidade pequena, obviamente, mas não muito distante da média urbana italiana. Em Vicenza, por exemplo, vivem 110 mil pessoas. O corpo do território italiano é formado por pequenos comunes como Sovizzo, algo como as cidades-dormitório do Brasil. A diferença reside no fato de que aqui essas cidades vivem plenamente a sua vocação de pacatas: não existem quase bares noturnos, ao meio-dia o comércio fecha para reabrir às 15h30 e nos domingos e nas quartas-feiras à tarde também não há expediente. A população é constituída basicamente de idosos, que são vistos por todos os lados, agindo ativamente. As crianças e adolescentes que saem das escolas quebram um pouco a rotina, mas quase não há jovens aqui. Procura-se em vão pessoas da faixa dos 20 aos 35 anos.

No centro geográfico de Sovizzo há uma villa, isto é, uma rica residência privada cercada de muros e decorada com diversos atrativos. Esse tipo de estrutura é muito antiga, remonta à antiga Roma, mas proliferou na Itália em geral com o sistema das senhorias, que foram o produto do fim do feudalismo e são um fenômeno tipicamente italiano. No caso de Sovizzo, o prédio foi construído no século XVI e seus donos foram responsáveis pela exploração econômica das cercanias até o século XX. Alguns dos colonos que deixaram esta região na grande imigração italiana rumo à América no século XIX optaram pela mudança para, entre outros, fugir da tirania dos senhores.

De resto, Sovizzo oferece três supermercados, igrejas movimentadas, alguns bons campos de futebol em dimensões oficiais e pequenos parchetti, parques e praças bem conservados com brinquedos para as crianças. Nada demais, não chega a ser uma cidade modelo, mas dá a dimensão do que é viver bem na Itália. Ao meio-dia, todos em casa para o almoço. E o sino da igreja, na construção mais alta da cidade, bate as badaladas costumeiras de povoações tranqüilas. Como de costume o faz a cada meia hora. | Juliano Bruni

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Lapso

Desde nossa chegada, transcorreram exatos 30 dias, mas parece que apenas uma semana ficou para trás. A noção do tempo, numa situação como a que nos encontramos, é mais relativa que de costume. Desembarcamos como simples turistas, encaminhamos o processo de reconhecimento de cidadania e, desde então, vivemos num lapso absoluto. Estamos impedidos legalmente de trabalhar e os passeios são restritos por questão de economia. Moramos em Sovizzo, uma pacata cidade de pouco mais de seis mil habitates, ao lado de Vicenza, região do Vêneto. Oficialmente, apenas esperando a conclusão do processo, que pode durar bem mais de um mês. A impressão é de que nossas vidas estão a um mês num indeterminado “pause”, que se desativa apenas depois da cidadania concluída e em raros momentos de descobertas.

Nossa casa não dispõe de telefone nem internet, comodidades de que nos servimos em outra residência de propriedade de nossa anfitriã, a algumas quadras. Tudo, enfim, conspira para o tédio e a impaciência. Driblamos a ambos, na medida do possível. | Juliano Bruni

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A partida, a chegada

Todos os que estavam no saguão do aeroporto portoalegrense sabiam que, mais ou menos tarde, aquele dia acabaria chegando. No entanto, qualquer partida é sentida, especialmente quando decidida, irrevogável e preparada há tempo. Preparado não há de estar, nunca, o coração para um momento como aquele, e lágrimas rolaram, como não poderia deixar de ser. Era a manhã ensolarada do domingo, 19 de outubro. Superado o último olhar e o último aceno, partimos. Uma viagem curta e estranha, como se estivéssemos deixando o nada, indo a lugar nenhum. Mas estávamos deixando Porto Alegre e rumando a São Paulo. Lá, do fim da manhã ao início da noite apenas caminhadas pelo saguão grosseiro e escuro do aeroporto, olhadelas animadas na direção dos painéis e uma pizza (suprema ironia) como almoço improvisado, devorada com empolgação.

O avião deslizou pela pista no início da noite. Mesmo colossal, deixava pouco espaço para as pernas, e isso determinou a sorte da viagem mais importante de nossas vidas até então: apertada e desconfortável. Vimos, ou melhor, não vimos o céu brasileiro na diminuta janela. Nuvens e escuridão. Melhor assim. Instantes depois, acima do tapete brumoso erguia-se a lua, grande e gorda, brilhante e branca. Numa confusão de sentimentos, preenchemos o parco espaço com pouquíssimos movimentos e passamos todo o tempo sem dormir de fato. A paisagem era sempre a mesma, de uma alvura chocante, nada mais. Assim decorreram 13 horas.

Quando a luz do sol, mesmo permeada pela bruma, irrompeu pelos pequenos quadrados da parede do avião, houve um contido e preguiçoso movimento coletivo. O café da manhã fora servido e logo depois a voz simpática e mecânica do comandante anunciava a aterrisagem no aeroporto de Malpensa, em Milão (ou assim anunciam para parecer mais simpático aos turistas: na realidade, Malpensa é uma localidade distante algunas dezenas de quilômetros de Milão). Ali, logo abaixo, estava a Itália, alma européia. Nosso velho sonho, nova casa.

Perfuramos as nuvens. Como um escudo de algodão, elas isolavam o sol na imensidão do espaço. Abaixo, tudo era cinza e úmido. Gotículas de água esvoaçavam. Quando tocamos o chão, não via-se muito além: a área era remota e o clima encarregava-se de bloquear a visão. Procedimentos costumeiros, o coração sereno. Exaltação somente nos primeiros sons da língua italiana. Não que sugerissem qualquer noção de elegância e erudição, pelo contrário. “Madonna di Dio!”, lamentou-se o funcionário, jaleco laranja e expressão rígida, agitando os braços na esperança de ser ajudado pelos companheiros de empreitada. Entramos no ônibus e em um par de minutos estávamos defronte os guichês da imigração. Ali sim alguma tensão: no indizível rolo legal que é o reconhecimento da cidadania, por ninharias já haviam complicado a chegada de brasileiros à Itália. Um policial percorria com olhos desleixados a fila que se formara. Distraiu-se com o celular no momento em que passava a Veri. Depois de algum tempo, carimbou o passaporte, fechou-o. Já de saída, a Veri escuta a pergunta de para onde iria. O sobrenome a denunciara. Disse em meio a um sorriso que iria a Sovizzo. “Sovizzo”, repetiu o guarda, e balançou a cabeça. Baixou os olhos, e foi assim que carimbou o meu passaporte.

A esteira ficou alguns minutos passando vazia à nossa frente, num passo vagaroso que lembrava um carrossel. Estávamos já tranqüilos, mas cansados. Enfim, pequenas e grandes malas coloridas começaram a cair ruidosamente sobre o tapete móvel. Mais alguns instantes e vimos surgir nossa bagagem, devidamente identificada com fitas verdes, brancas e vermelhas. Num salto, nos pusemos a caminhar. “Uscita”, dizia acima de um grande portal, por onde via-se uma claridade opaca. No limiar, um oficial parou uma mulher jovem, analisou-lhe a bagagem de etiquetas verdes e pediu que se dirigisse a uma porta. Nossas etiquetas eram amarelas e parece ter sido isso o código para que nos sentíssemos, verdadeiramente, recepcionados.

O pequeno corredor nos revelou uma figura conhecida. Junto com o clarão da rua vi a Veri ser abraçada por nossa amiga Vane, madrinha de nosso sonho italiano. Fora ela quem, a um custo imposto inclusive ao namorado, obtera para nós a certidão que faltava. Na dependência de um certo Don Marco, evasivo padre lombardo, dessa folha de papel dependia tudo, inclusive aquele momento, que devia a sua realização à amizade da Vane. E era ela quem estava ali, nos recepcionando. Uma troca rápida de palavras e estávamos instalados nas poltronas pretas de um café do saguão de Malpensa. Dali, observei a menos de três metros um jovem de feições berberes, animado por uma música inconfundível, ritmo árabe, que vinha de um celular. Devia tratar-se de um marroquino. Sorridente, deslizava a cabeça por sobre os ombros, acompanhando a canção. Exibia-se a duas moças ocidentais. Não falavam italiano, nem inglês, nem qualquer língua que eu seja capaz de entender, e riam. Ao nosso lado, no corredor, passavam mulheres envoltas em lenços, o andar arrastado. Cruzaram por homens negros, de rosto largos e redondos. Lá longe pude perceber um rapaz vestindo elegante blazer escuro. Celular na mão, falava em italiano. Larguei o peso do corpo e me atirei na poltrona para daí a pouco beber o expresso que nos era servido. Chegamos. | Juliano Bruni

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Só vontade não basta

Escrever um blog, ao contrário do que parece, não é tarefa das mais fáceis e simplórias. Requer um tanto de dedicação e outro tanto de paciência e, digamos assim, “clareza editorial”. Porque se poderia escrever qualquer coisa, postar qualquer coisa. Mas se se deseja fazer algo de mínima qualidade, só a vontade não basta.

Fizemos este blog para suprir duas necessidades básicas: a de repassar informações sobre nosso novo contexto de vida e falar sobre aquilo que vemos, ouvimos e sentimos. Fazer jornalismo. Que, como se sabe, só é possível se feito em equipe. Falaremos de nós, mas sobretudo do entorno.

A Itália, assim nos parece desde já, é um país curioso. Exibe para quem quiser ver suas confusões e misérias. Mas com muito mais ênfase e freqüência, mostra sua magnanimidade e brilhantismo. Toda essa tensão entre o lado minoritariamente problemático e o lado majoritamente esplêndido terá reflexos aqui. Porque nossas vidas agora se definem na medida em que estamos na Itália e, com um pouco de tendência e também de boa vontade, nos tornamos italianos. | Juliano Bruni

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