A velha e a rica Europa

A rica Veneza

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009. A bolsa na vitrine da Bottega Veneta custa cerca de 1,5 mil euros… | foto: Veridiana Dalla Vecchia

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009

5 commenti

Archiviato in Uncategorized

A corrida das folhas

Há algo de muito peculiar no clima italiano, quase misterioso. Uma coisa é a idéia que se faz de longe (e eu tinha uma idéia a princípio clara), outra é a comprovação, a vivência. No verão, faz um calor demasiadamente incômodo (todo calor é incômodo, este apenas um pouco mais, úmido); durante o inverno, o ar transforma-se numa parede sólida. Não há sentido algum em reclamar da amplitude térmica gaúcha — a não ser que ela aconteça no mesmo dia: aqui no norte italiano os verões beiram os 40ºC, enquanto no inverno raríssimamente a temperatura sobe a dois dígitos. Ou seja, o divario, a diferença é de quase 40 graus…

Hoje vi uma coisa animadora e bela. Há algumas semanas o clima tenta aliviar minha tristeza e solidão enviando-me sinais. A temperatura continua insensível para comigo, mas as folhas das árvores já despencam e se acumulam, amareladas. Ouço um farfalhar e abro a janela esperando ver chuva. Nada cai do céu, mas corre sobre a rua. Eram centenas de folhas dos plátanos das redondezas apostando uma corrida Via Portello acima. Literalmente uma gara, uma disputa: seguiam em linha reta, em blocos, ajudadas pelo vento fresco. Todas invariavelmente secas, de uma coloração bonita de outono de clima temperado. Não esvoaçavam, giravam. Corriam. Do recorte de entre os prédios pelo qual vejo a rua, observava satisfeito o sinal da natureza, que aqui é regular. O outono está chegando. Eu preciso ficar aqui. | Juliano Bruni

1 Commento

Archiviato in Divagações

A verdade sobre o cappuccino e outros cafés italianos

cappuccinoUma das minhas missões aqui na Itália era, e continua sendo, a de descobrir verdades e mentiras sobre os produtos tradicionais italianos, orgulhosamente proclamados made in Italy. Porque as tradições — quase todas elas, de qualquer lugar do globo — inegavelmente se estão esvaíndo cada vez mais que se adentra a modernidade. A Itália vê como verdadeiro patrimônio cultural certas usanças, sobretudo no que diz respeito aos seus produtos autóctones ou àqueles que se tornaram famosos através do “manuseio” italiano.

O café, por exemplo. A Península tem cerca de 4 mil produtos típicos e o café está entre eles mesmo o território italiano não contando com um único pé de coffea arabica. Isso porque as formas de preparação instituídas pelos artesãos azzurri ditaram as regras para as variedades da bebida. O maior embuste que, como brasileiro, pude descobrir ter sido vítima segue sendo o cappuccino, a bebida matinal italiana por excelência. Minha dor só não é maior porque, ao que resulta de minhas pesquisas, os próprios italianos são vítimas de engodo quanto a esse tipo de café. Isso até 1999, quando surge um instituto específico para vigiar sobre a qualidade e a correteza da preparação do café expresso — que aqui se chama simplesmente caffè, porque não existe (passou a existir depois) aquele café basicamente feito de água passada em coador de tecido ou filtros de papel, que recebe o apropriado nome de caffè americano, daquelas cenas em que garçonetes em uniforme, usualmente com pintas a là Marylin e mascando chicletes com ar de enfado servem clientes com a jarra em punho. O Istituto Nazionale Espresso Italiano pousou os olhos agora na preparação recorrentemente displicente do cappuccino, mesmo nos bares italianos. “A média do cappuccino que se bebe na Itália é péssima”, alertou uma vez o especialista Davide Paolini, em tom apocalíptico.

Traçando um comparativo entre o que conhecemos como cappuccino no Brasil e o real cappuccino, a verdade é que existe uma confusão não apenas de ingredientes e preparação, mas também de identificação entre os diferentes tipos. O que chamamos de cappuccino vem a ser o também tradicional moccaccino italiano, ou alguma aproximação nebulosa. O primeiro precisa de um equilíbrio perfeito de 25 mililitros de expresso e 125 de leite vaporizado — nem em sonho de tipo uht, de longa conservação, mas apenas fresco e integral, a fim de proporcionar a cremosidade —, além da famosa schiuma, a espuma (produzida com leite pressurizado) do topo. E basta: nada de chocolate, que entra como ingrediente básico em forma de xarope, aí sim, do moccaccino. Em síntese: o cappuccino brasileiro, na verdade, é uma versão mal feita do moccaccino italiano.

Além disso, existem outras diferenciações na miríade de tipos de café italiano. A confusão comum aqui, por sua vez, acontece entre o cappuccino e o caffè latte, que são personalidades distintas unicamente pela quantidade de leite e espuma. A schiuma pressurizada é dominante no cappuccino, enquanto no caffè latte o leite vaporizado é, obviamente, ator principal da receita.

Após esquadrinhar tudo na mente, percebi que existe um perigo real à economia mundial se sanções forem aplicadas ao uso incorreto de tradições gastronômicas. A genialidade brasileira nos proporcionou um cappuccino com chocolate e um moccaccino (que foi renomeado de moka entre nós) com mais chocolate ainda. Se essa fosse, por exemplo, uma infração grave, punida com pontos na carteira e multa, a Itália — somando tudo: café, pizza, salames, queijos, vinhos, massas, azeite de oliva, pães, trufas — poderia se tornar o Estado mais rico do planeta num piscar de olhos. | Juliano Bruni

1 Commento

Archiviato in Divagações, Gastronomia

“Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”

venezia_1

Foto: Veridiana Dalla Vecchia

Domingo de fim de maio, já passado do meio-dia. Riva del Vin, a poucos metros da Ponte del Rialto, margem do Canal Grande. Algumas mesas de toalhas muito elegantes, nas cores venezianas, uma fileira de restaurantes pomposos e garçons de todas as partes do mundo a se movimentarem dentro de ternos também escarlate. Da nossa mesa à água talvez apenas um metro e meio, a distância de outra mesa, posta a nosso lado. A tradicional regata fazia com que embarcações de diversos tamanhos cortassem o centro do canal, enquanto as clássicas gôndolas repousavam nos ancoradouros de madeira. Sobre a ponte, uma multidão caminhava a passo curto e lento. Bem mais rápida foi a ambulância, uma ruidosa lancha a motor, vermelha e branca obviamente, que ultrapassou os competidores com as sirenes ligadas. Em Veneza as ruas não são de asfalto ou terra, como se sabe.

Gritinhos de susto, olhares consternados, frigir de lábios. Nossos vizinhos comensais das mesas mais à beira agora reclamam da água que, vinda em ondas a partir da ambulância, batem maliciosas na beira, espirram sutilmente a água e lhes encharcam os pés e as pernas até o joelho. No instante seguinte à desilusão, sorrisos, sorrisos sinceros. Não há como se aborrecer: estamos em Veneza, a cidade capaz de fazer feliz até mesmo quem tem molhados pela água da Laguna os caríssimos mocassins italianos ou a borda de vestidos de grife.

Há sete meses postergamos nossa primeira visita. Eu, particularmente, nutria uma desconfiança séria em relação à afetividade que americanos, sobretudo, dedicavam à cidade. A isso somava-se uma parcial antipatia pela trajetória histórica de Veneza, de como reuniu tesouros e se tornou uma Wall Street medieval e renascimentista. Eram ávidos de riqueza, os venezianos. Mérito e miséria, como sempre, como tudo. A Veri, por sua vez, esperava paciente a fim de reverenciar o berço de uma cultura que é a dela, e a qual defende com muito (e justo) orgulho. Mas estávamos chegando e eu não posso negar até mesmo uma emoção na véspera. Porque, diziam, Veneza é um sonho, além de uma página única na História.

O Google Earth pode esclarecer aos curiosos a geografia espacial da cidade. Mas não elucida como aquilo foi parar ali. São mais de cem ilhas, o que nem com mágica se consegue vislumbrar agora. Isso porque o gênio do Homem parece ter convergido para todos aqueles que, em mil e quinhentos anos, colocaram pedras sobre as ilhotas. Em síntese, é um emaranhado infinito de pequenas e grandes — muito mais pequenas que grandes — passagens entre edifícios belíssimamente construídos, mesmo que tendo de se adaptar às condições exíguas de espaço e funcionalidade. Veneza, na verdade, é um espasmo necessário: se fugia das invasões bárbaras quando se decidiu habitar ilhotas de dimensões sumárias no — como chamou Indro Montanelli — desolado arquipélago. Era 452, Átila rasgava o norte italiano e os habitantes de Padova, Verona, Aquiléia, Treviso e outras cidades e aldeias decidiram se refugiar no terreno mais propício à auto-defesa. O grande jornalista italiano sistetizou: os fugitivos desenvolveram aquela “vida anfíbia que deveria ditar o seu destino”. A peculiaridade do modo de vida aos quais estariam condenados causou estranheza até mesmo a um geógrafo de Ravenna do século VII: “Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”.

Mais de um milênio depois, o que pude testemunhar é o fato de que, talvez, mesmo confinada em suas limitações físicas, Veneza seja a mais bela cidade do mundo por não ter limitações artísticas. Me arrependi totalmente de minha desconfiança. Duvido que em todo o planeta aja algo semelhante em nível de beleza. Veneza é estilo em estado puro. A História explica, claro — contato com o Oriente, civilização cosmopolita, aberta, rica, dinâmica —, mas é preciso caminhar pela cidade, ver o que há para ser visto, para que se possa ter noção do que significa o que estou tentando dizer.

Mas, evidentemente, não é “apenas” a geografia da cidade a tornar tudo tão singular e belo. Claro que deslocar-se por um território urbano onde as ruas são artérias d’água cria um efeito peculiar, mas, superada a fase de adaptação, Veneza concentrou-se no que estava no seco. Os prédios são literalmente amontoados uns aos outros. Pequenos pátios se abrem repentinamente, o que, quando de sua construção, dependia muito do status do dono da área. Becos diminutos muitas vezes abrem-se em improváveis acessos múltiplos: duas ou três escadarias, três ou quatro portas, novas passagens, a água novamente. Tudo poderia ser — para alguém certamente é — muito claustrofóbico, e, no entanto, é excitante, misterioso, belo.

Andamos basicamente em um dos não muito numerosos roteiros para turistas. O objetivo principal é evitar que os visitantes se percam, o que é provável sem a existência de roteiros estabelecidos. Logicamente subvertemos, na medida do possível, essa restrição à nossa liberdade “jornalística”. Então, já no fim do dia e na tentativa de retornar à estação, o inevitável aconteceu e estávamos perdidos. Prudentemente, havíamos comprado um bom mapa ainda na chegada — me orgulho de ter uma excelente capacidade de orientação, ao contrário da Veri, mas nesse caso, em que as ruas molham e onde se pode afundar, achei melhor prevenir. É preciso registrar, porém, que nenhum mapa, mesmo aqueles palm-tops que turistas alemães e orientais em especial adoram exibir, são capazes de simbolizar a geografia exata da cidade. Eu controlei: alguns cruzamentos das calles (lê-se “cáles”, e não aquele bizarro fonema castelhano) são impossíveis de simbolizar graficamente de forma prática. Os pés doíam e em determinado momento nos flagramos caminhando pela mesma via, duas, três, quatro vezes. Foi preciso alguma perspicácia para nos reorientarmos, até que caíssemos — mais uma vez prudentemente — no mesmo caminho da ida. Ou seja, imaginando que a grande maioria dos turistas siga os roteiros pré-estabelecidos, não se visita nem mesmo 20% da área da cidade. Nosso aproveitamento deve ter sido um pouco superior, dados os riscos a que nos entregamos.

Além da morfologia veneziana, a “alma” da cidade é especial. Lojas, muitas lojas, de máscaras, quadros, roupas, sapatos, bijuterias, canetas-tinteiro. Sebos de grandes dimensões, caixas de papelão com discos de vinil a dois euros. Lojas de grifes, outras visivelmente patrimônio de família. Osterias e restaurantes belíssimos, que me fizeram esquecer os pubs britânicos por completo. Nas paredes, as faces expressivas das tradicionalíssimas máscaras por vezes metiam medo, outras vezes pareciam querer contar algo. Como havia previsto, fiquei particularmente marcado por aquelas máscaras. Em geral, essa forma de arte exerce uma espécie de poder sobre as pessoas. Em Veneza, têm-se a impressão de que espreitam, as máscaras. Alguns manequins ficam postados de pé, enrolados em mantos antigos, a cabeça baixa. Assustador e sedutor.

Obviamente, muitos turistas — o ponto negativo, apesar de pensar que, não fosse o contínuo movimento animado dos visitantes, Veneza seria uma cidade sombria, ameaçadora. Alguns demonstram saber onde estão, são até mesmo reverentes. Mas a grande maioria não passa de embasbacados transeuntes, preocupados quase que exclusivamente em comprar, ou em “curtir” a cidade sem ao menos se perguntar por que ela existe, por que é assim. Não lhes vem à mente, estou certo disso, por que estão ali, a não ser o efeito que causa dizer que já esteve em Veneza.

Não visitei o Harry’s Bar, onde muitas figuras deram o ar glamouroso de sua graça — lembro positivamente de Heminghway, um mestre da escrita. Já a Piazza San Marco (desenhada por Leonardo Da Vinci) me pareceu menor, enquanto o campanile se revelou muito maior do que tinha em mente. Não entramos na Basílica, em parte por causa da fila, mas também porque fechava cedo e não consegui descobrir onde raios deveria guardar a mochila que levava nas costas. Por fora é absolutamente linda, bizantina até o último milímetro, com os quatro cavalos dourados (réplicas, porque os originais estão protegidos no interior) fruto do botim da Quarta Cruzada no alto da fachada. O Palácio Ducal, um primor. A Ponte dos Suspiros prejudicada pelos painéis protetores por causa da reforma que fazem no entorno. A margem, com as gôndolas “estacionadas”, belíssima mesmo com o céu cinza-chumbo — nem a chuva de verão, que Vivaldi simbolizou nas Quatro Estações, prejudicou nossa impressão da cidade.

Não andamos sobre as águas, nas gôndolas de um design de sonho. Fica para a próxima vez, que serão muitas. Essa noção esteve sempre presente, afinal moramos a 40 minutos de distância. O que eu espero que se reduza a nada, porque desde o último domingo desejo visceralmente viver em Veneza — se DM, com toda aquela raiva e estreiteza de pensamento pôde, por que também não eu?

Fiquei pensando na ironia daquela suspeita quase desdenhosa do geógrafo ravenense. “É, parece que aquelas ilhas se tornaram uma linda cidade. A mais bela que já vi.” | Juliano Bruni

7 commenti

Archiviato in Uncategorized

Rodinhas

Padova é uma cidade universitária. O ateneu, como chamam aqui, faz o grosso da economia da cidade girar. A própria universidade, fundada em 1222, é um grande universo interno, mas os jovens que a mantém viva movimentam ainda o segmento do entretenimento padovano. O spritz, verdadeira instituição vêneta, é bebido por milhares de ragazzi e ragazze nos fins de tarde, no inverno e principalmente no verão. Nossa vizinhança aqui no bairro Portello é basicamente formada por universitários, já que a região é o quartel-general da maior parte das faculdades.

Mas há uma face melancólica nesse contexto animado de almas juvenis a passar para lá e para cá. Como é muito comum na Itália, onde os estudantes precisam se deslocar para encontrar universidades que ofereçam os cursos especificos, o vai-e-vem não acontece apenas dentro da cidade, mas também para fora dela. O Portello, sendo o centro nevrálgico da universidade, é o que sofre mais com o êxodo dos finais de semana. Toda quinta-feira, o movimento de retorno provisório tem início. A melodia mais ouvida então é o ruído árido e constante das rodinhas das malas. Deslizam em carreata sem fim rumo à estação, puxadas displicentemente.

Nos sábados e domingos, as ruas em torno à nossa casa estão vazias e desoladas. No inverno era muito pior — não havia os numerosos grupos de turistas a se movimentar lentamente. Mas ainda assim é triste. O espaço fica então completamente aberto aos traficantes magrebinos que giram na área como hienas em torno da carcaça (o que fazem também durante as noites da semana, mas sem o efeito desanimador de se sentir solitário em meio àquilo tudo).

É possível, agora que estamos aqui já há meio ano, marcar a passagem da semana através do som das rodinhas. Não é harmonioso, melódico, mas é um som que transmite uma sensação. Talvez de solidão. Ou abandono. Nós estamos lentamente (muito lentamente) nos inserindo no contexto. Não pertencemos completamente a ele ainda. | Juliano Bruni


# IMPORTANTE: nossas postagens estão numa periodicidade bastante irregular porque não conseguimos ainda uma estabilidade para podermos nos dedicar a escrever como deve ser, com calma e tranqüilidade. Talvez inclusive a Veri fique ausente de Favole Italiane um período maior. Tentaremos manter o blog sempre ativo, mesmo que com grandes espaços entre as postagens.

2 commenti

Archiviato in Uncategorized

Primavera-verão

Meu entusiasmo com a primavera européia veio cedo demais. Na semana seguinte a meu último texto, uma onda de calor se espalhou pela península provocando um alerta nacional. Dizem os especialistas — e os cito porque o caso é para estudiosos — que se trata de uma temperatura completamente atípica, muitíssimo “acima da média para o período”. O fato é que os termômetros estão já há quase duas semanas acima dos 30 graus. Ri, e ri muito, da minha própria ingenuidade: por mais que no Rio Grande do Sul estejamos nas franjas dos trópicos, as tais massas de ar quente vinham do eixo central da Terra e duelavam com as massas de ar frio (pelas quais torcia visceralmente) provenientes da Antártida, Patagônia, Argentina. Aqui o ar quente vem do deserto do Saara, o que é quase uma grife.

Evidentemente poderia ficar pior quando se trata de calor — e sobretudo quando eu o estou sofrendo. A Pianura Padana, região geográfica que corresponde ao vale do rio Pó e da qual Padova é uma espécie de capital vêneta, é praticamente a única parte baixa do terreno italiano. Todo o resto do país está sobre montanhas — os Alpes, longitudinalmente ao norte; os Apeninos de norte a sul. A névoa padana de inverno é um símbolo da característica de planície. No verão essa umidade transforma-se numa massa dispersa, mas que de tão consistente chega a alterar a luz solar que chega ao solo. É uma luminosidade etérea, como se viu em algumas passagens do Senhor dos Anéis, algo fosco, menos brilhante. O céu, azul vivo no início da primavera, tornou-se nesses dias de um branco levemente celeste.

Como todo calor úmido, tem-se a sensação de que o próprio corpo é uma espécie de esponja. As pernas ficam bambas, a cabeça dói com uma pressão constante. Impossível ler um livro, caminhar na rua, sentar-se na frente do computador. Tudo isso há um mês do início do verão. Parece que amanhã um vento ameniza a temperatura. Vem da Rússia, o tal vento. O que faz um novo duelo, Saara x Sibéria, para o qual já escolhi meu lado. | Juliano Bruni

1 Commento

Archiviato in Uncategorized

A Primavera

Galhos secos, troncos retorcidos, chão húmido, ar frio, paisagem cinzenta. De repente, num curto espaço de alguns dias — meados de abril —, a natureza literalmente explode. A relva tranforma-se em tapete macio, as árvores quintuplicam seu perímetro, o ar corre fresco, o céu mostra o seu azul e as muitas flores suas muitas cores. Faz sol na primavera européia. O clima é ameno. A cor é o verde.

Cresci, propositalmente ou não, num ambiente eurocêntrico. A despeito de alguns filmes Sessão da Tarde — que, a rigor, eu não podia assistir —, todo meu ambiente infantil e até juvenil era culturalmente europeu. Os muitos livros para crianças que ganhava contavam as histórias dos Irmãos Grimm e outras lendas antiquíssimas e logo eu estaria lendo obras mais maduras sobre os reinos e, consequentemente, sobre os países. Nesse contexto, me sinto bastante realizado em vivenciar um mundo que sempre me encantou. As estações e a representação máxima do mundo físico que proporcionam é talvez um dos mais intrigantes aspectos desse “novo mundo”. Mesmo na “temperada” região meridional do Brasil, não é costume da natureza respeitar uma ordem climática (costumo dizer que temos um outono e três verões). E eu estava curioso, mesmo que se tenha perdido — sobretudo no Ocidente industrial — a referência do clima e das estações como algo digno de nota no dia-a-dia das pessoas. Não me importa que o tempo climático tenha deixado de ser referência com a modernidade. Sob muitos aspectos, vivo no passado. Acho que seria interessante nos perguntarmos como era o mundo pré-industrial.

O inverno é frio, mas acima de tudo é constante. Todas as três estações que vivi já aqui são empenhadas em se autorepresentar. Vi neve por três vezes (novembro, dezembro e janeiro), outras tantas algo parecido. Mais que a sensação térmica, é o ar gelado que causa impressão no inverno: é como uma parede invisível, contra a qual se deve forçar. (Eu estava no céu!) Então essa parede foi suavizando-se, o ar tornou-se cristalino, reluzente, como se brilhasse sozinho. Diría-se que era feito de cristais da Boêmia. Ainda assim as plantas — a natureza terrestre, digamos — esperava. Viu-se semanas estranhas. Parecia que as árvores cochichavam. Conspiravam. Os pássaros por vezes cantavam, mas em geral mantinham um silêncio quase nervoso, tenso. Era março.

O caminho entre nossa casa e o grande hipermercado onde fazemos la spesa domestica é bastante agradável e me lembra as paisagens de minha imaginação infantil. Uma estradinha não muito comprida, mas que adentra um pequeno bosque, costeada por árvores altas e, em um dos lados, a riva de um dos canais de Padova. Há algumas semanas, o cenário era aquele da primeira linha deste texto: burtoniano. Passei por ele hoje e estava satisfeito consigo mesmo: resplandecente e vaidosamente verde e fresco.

Parênteses (quase) inútil. Não me entendam errado, a mudança de hemisfério não alterou minha personalidade: continuo preferindo o inverno, o frio e tudo o que se pode fazer no contexto favorável que criam, quase como um estilo de vida. Mas devo dizer que é bastante gratificante e agradável a (até agora) primavera européia. Tudo isso ganha sentido apenas em confronto com o clima gaúcho, e meridional como um todo. A questão não está apenas na sensação térmica. Está na completa alteração do ritmo da vida — da natureza, mas também das pessoas.

Enfim compreendi o significado dos ciclos das estações e me peguei surpreendido pela satisfação em ver o sol. Entendi o sentido de se aguardar tanto o “renascer” que é o fim do inverno. Os antigos atribuíam valor quase de sentimento humano ao rigor do clima — os mais detestados sendo o inverno e o verão, evidentemente. Agora tudo isso foi compreendido. Pode parecer tolo, mas isso é um eco do passado, o que me é caro.E, a rigor, penso que não vivemos tão independentes da natureza como pensamos.

Estou feliz em ter três estações no ano. O verão, não adianta, continuo dispensando. | Juliano Bruni

2 commenti

Archiviato in Uncategorized