A velha e a rica Europa

Martedì, 22 Settembre 2009 · Lascia un Commento

A rica Veneza

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009. A bolsa na vitrine da Bottega Veneta custa cerca de 1,5 mil euros… | foto: Veridiana Dalla Vecchia

Calle Vallaresso, San Marco, centro de Veneza, final de maio de 2009

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A corrida das folhas

Sabato, 29 Agosto 2009 · 1 Commento

Há algo de muito peculiar no clima italiano, quase misterioso. Uma coisa é a idéia que se faz de longe (e eu tinha uma idéia a princípio clara), outra é a comprovação, a vivência. No verão, faz um calor demasiadamente incômodo (todo calor é incômodo, este apenas um pouco mais, úmido); durante o inverno, o ar transforma-se numa parede sólida. Não há sentido algum em reclamar da amplitude térmica gaúcha — a não ser que ela aconteça no mesmo dia: aqui no norte italiano os verões beiram os 40ºC, enquanto no inverno raríssimamente a temperatura sobe a dois dígitos. Ou seja, o divario, a diferença é de quase 40 graus…

Hoje vi uma coisa animadora e bela. Há algumas semanas o clima tenta aliviar minha tristeza e solidão enviando-me sinais. A temperatura continua insensível para comigo, mas as folhas das árvores já despencam e se acumulam, amareladas. Ouço um farfalhar e abro a janela esperando ver chuva. Nada cai do céu, mas corre sobre a rua. Eram centenas de folhas dos plátanos das redondezas apostando uma corrida Via Portello acima. Literalmente uma gara, uma disputa: seguiam em linha reta, em blocos, ajudadas pelo vento fresco. Todas invariavelmente secas, de uma coloração bonita de outono de clima temperado. Não esvoaçavam, giravam. Corriam. Do recorte de entre os prédios pelo qual vejo a rua, observava satisfeito o sinal da natureza, que aqui é regular. O outono está chegando. Eu preciso ficar aqui. | Juliano Bruni

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A verdade sobre o cappuccino e outros cafés italianos

Martedì, 11 Agosto 2009 · 1 Commento

cappuccinoUma das minhas missões aqui na Itália era, e continua sendo, a de descobrir verdades e mentiras sobre os produtos tradicionais italianos, orgulhosamente proclamados made in Italy. Porque as tradições — quase todas elas, de qualquer lugar do globo — inegavelmente se estão esvaíndo cada vez mais que se adentra a modernidade. A Itália vê como verdadeiro patrimônio cultural certas usanças, sobretudo no que diz respeito aos seus produtos autóctones ou àqueles que se tornaram famosos através do “manuseio” italiano.

O café, por exemplo. A Península tem cerca de 4 mil produtos típicos e o café está entre eles mesmo o território italiano não contando com um único pé de coffea arabica. Isso porque as formas de preparação instituídas pelos artesãos azzurri ditaram as regras para as variedades da bebida. O maior embuste que, como brasileiro, pude descobrir ter sido vítima segue sendo o cappuccino, a bebida matinal italiana por excelência. Minha dor só não é maior porque, ao que resulta de minhas pesquisas, os próprios italianos são vítimas de engodo quanto a esse tipo de café. Isso até 1999, quando surge um instituto específico para vigiar sobre a qualidade e a correteza da preparação do café expresso — que aqui se chama simplesmente caffè, porque não existe (passou a existir depois) aquele café basicamente feito de água passada em coador de tecido ou filtros de papel, que recebe o apropriado nome de caffè americano, daquelas cenas em que garçonetes em uniforme, usualmente com pintas a là Marylin e mascando chicletes com ar de enfado servem clientes com a jarra em punho. O Istituto Nazionale Espresso Italiano pousou os olhos agora na preparação recorrentemente displicente do cappuccino, mesmo nos bares italianos. “A média do cappuccino que se bebe na Itália é péssima”, alertou uma vez o especialista Davide Paolini, em tom apocalíptico.

Traçando um comparativo entre o que conhecemos como cappuccino no Brasil e o real cappuccino, a verdade é que existe uma confusão não apenas de ingredientes e preparação, mas também de identificação entre os diferentes tipos. O que chamamos de cappuccino vem a ser o também tradicional moccaccino italiano, ou alguma aproximação nebulosa. O primeiro precisa de um equilíbrio perfeito de 25 mililitros de expresso e 125 de leite vaporizado — nem em sonho de tipo uht, de longa conservação, mas apenas fresco e integral, a fim de proporcionar a cremosidade —, além da famosa schiuma, a espuma (produzida com leite pressurizado) do topo. E basta: nada de chocolate, que entra como ingrediente básico em forma de xarope, aí sim, do moccaccino. Em síntese: o cappuccino brasileiro, na verdade, é uma versão mal feita do moccaccino italiano.

Além disso, existem outras diferenciações na miríade de tipos de café italiano. A confusão comum aqui, por sua vez, acontece entre o cappuccino e o caffè latte, que são personalidades distintas unicamente pela quantidade de leite e espuma. A schiuma pressurizada é dominante no cappuccino, enquanto no caffè latte o leite vaporizado é, obviamente, ator principal da receita.

Após esquadrinhar tudo na mente, percebi que existe um perigo real à economia mundial se sanções forem aplicadas ao uso incorreto de tradições gastronômicas. A genialidade brasileira nos proporcionou um cappuccino com chocolate e um moccaccino (que foi renomeado de moka entre nós) com mais chocolate ainda. Se essa fosse, por exemplo, uma infração grave, punida com pontos na carteira e multa, a Itália — somando tudo: café, pizza, salames, queijos, vinhos, massas, azeite de oliva, pães, trufas — poderia se tornar o Estado mais rico do planeta num piscar de olhos. | Juliano Bruni

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“Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”

Venerdì, 05 Giugno 2009 · 7 Commenti

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Foto: Veridiana Dalla Vecchia

Domingo de fim de maio, já passado do meio-dia. Riva del Vin, a poucos metros da Ponte del Rialto, margem do Canal Grande. Algumas mesas de toalhas muito elegantes, nas cores venezianas, uma fileira de restaurantes pomposos e garçons de todas as partes do mundo a se movimentarem dentro de ternos também escarlate. Da nossa mesa à água talvez apenas um metro e meio, a distância de outra mesa, posta a nosso lado. A tradicional regata fazia com que embarcações de diversos tamanhos cortassem o centro do canal, enquanto as clássicas gôndolas repousavam nos ancoradouros de madeira. Sobre a ponte, uma multidão caminhava a passo curto e lento. Bem mais rápida foi a ambulância, uma ruidosa lancha a motor, vermelha e branca obviamente, que ultrapassou os competidores com as sirenes ligadas. Em Veneza as ruas não são de asfalto ou terra, como se sabe.

Gritinhos de susto, olhares consternados, frigir de lábios. Nossos vizinhos comensais das mesas mais à beira agora reclamam da água que, vinda em ondas a partir da ambulância, batem maliciosas na beira, espirram sutilmente a água e lhes encharcam os pés e as pernas até o joelho. No instante seguinte à desilusão, sorrisos, sorrisos sinceros. Não há como se aborrecer: estamos em Veneza, a cidade capaz de fazer feliz até mesmo quem tem molhados pela água da Laguna os caríssimos mocassins italianos ou a borda de vestidos de grife.

Há sete meses postergamos nossa primeira visita. Eu, particularmente, nutria uma desconfiança séria em relação à afetividade que americanos, sobretudo, dedicavam à cidade. A isso somava-se uma parcial antipatia pela trajetória histórica de Veneza, de como reuniu tesouros e se tornou uma Wall Street medieval e renascimentista. Eram ávidos de riqueza, os venezianos. Mérito e miséria, como sempre, como tudo. A Veri, por sua vez, esperava paciente a fim de reverenciar o berço de uma cultura que é a dela, e a qual defende com muito (e justo) orgulho. Mas estávamos chegando e eu não posso negar até mesmo uma emoção na véspera. Porque, diziam, Veneza é um sonho, além de uma página única na História.

O Google Earth pode esclarecer aos curiosos a geografia espacial da cidade. Mas não elucida como aquilo foi parar ali. São mais de cem ilhas, o que nem com mágica se consegue vislumbrar agora. Isso porque o gênio do Homem parece ter convergido para todos aqueles que, em mil e quinhentos anos, colocaram pedras sobre as ilhotas. Em síntese, é um emaranhado infinito de pequenas e grandes — muito mais pequenas que grandes — passagens entre edifícios belíssimamente construídos, mesmo que tendo de se adaptar às condições exíguas de espaço e funcionalidade. Veneza, na verdade, é um espasmo necessário: se fugia das invasões bárbaras quando se decidiu habitar ilhotas de dimensões sumárias no — como chamou Indro Montanelli — desolado arquipélago. Era 452, Átila rasgava o norte italiano e os habitantes de Padova, Verona, Aquiléia, Treviso e outras cidades e aldeias decidiram se refugiar no terreno mais propício à auto-defesa. O grande jornalista italiano sistetizou: os fugitivos desenvolveram aquela “vida anfíbia que deveria ditar o seu destino”. A peculiaridade do modo de vida aos quais estariam condenados causou estranheza até mesmo a um geógrafo de Ravenna do século VII: “Parece que há ilhas no Vêneto onde vivem homens”.

Mais de um milênio depois, o que pude testemunhar é o fato de que, talvez, mesmo confinada em suas limitações físicas, Veneza seja a mais bela cidade do mundo por não ter limitações artísticas. Me arrependi totalmente de minha desconfiança. Duvido que em todo o planeta aja algo semelhante em nível de beleza. Veneza é estilo em estado puro. A História explica, claro — contato com o Oriente, civilização cosmopolita, aberta, rica, dinâmica —, mas é preciso caminhar pela cidade, ver o que há para ser visto, para que se possa ter noção do que significa o que estou tentando dizer.

Mas, evidentemente, não é “apenas” a geografia da cidade a tornar tudo tão singular e belo. Claro que deslocar-se por um território urbano onde as ruas são artérias d’água cria um efeito peculiar, mas, superada a fase de adaptação, Veneza concentrou-se no que estava no seco. Os prédios são literalmente amontoados uns aos outros. Pequenos pátios se abrem repentinamente, o que, quando de sua construção, dependia muito do status do dono da área. Becos diminutos muitas vezes abrem-se em improváveis acessos múltiplos: duas ou três escadarias, três ou quatro portas, novas passagens, a água novamente. Tudo poderia ser — para alguém certamente é — muito claustrofóbico, e, no entanto, é excitante, misterioso, belo.

Andamos basicamente em um dos não muito numerosos roteiros para turistas. O objetivo principal é evitar que os visitantes se percam, o que é provável sem a existência de roteiros estabelecidos. Logicamente subvertemos, na medida do possível, essa restrição à nossa liberdade “jornalística”. Então, já no fim do dia e na tentativa de retornar à estação, o inevitável aconteceu e estávamos perdidos. Prudentemente, havíamos comprado um bom mapa ainda na chegada — me orgulho de ter uma excelente capacidade de orientação, ao contrário da Veri, mas nesse caso, em que as ruas molham e onde se pode afundar, achei melhor prevenir. É preciso registrar, porém, que nenhum mapa, mesmo aqueles palm-tops que turistas alemães e orientais em especial adoram exibir, são capazes de simbolizar a geografia exata da cidade. Eu controlei: alguns cruzamentos das calles (lê-se “cáles”, e não aquele bizarro fonema castelhano) são impossíveis de simbolizar graficamente de forma prática. Os pés doíam e em determinado momento nos flagramos caminhando pela mesma via, duas, três, quatro vezes. Foi preciso alguma perspicácia para nos reorientarmos, até que caíssemos — mais uma vez prudentemente — no mesmo caminho da ida. Ou seja, imaginando que a grande maioria dos turistas siga os roteiros pré-estabelecidos, não se visita nem mesmo 20% da área da cidade. Nosso aproveitamento deve ter sido um pouco superior, dados os riscos a que nos entregamos.

Além da morfologia veneziana, a “alma” da cidade é especial. Lojas, muitas lojas, de máscaras, quadros, roupas, sapatos, bijuterias, canetas-tinteiro. Sebos de grandes dimensões, caixas de papelão com discos de vinil a dois euros. Lojas de grifes, outras visivelmente patrimônio de família. Osterias e restaurantes belíssimos, que me fizeram esquecer os pubs britânicos por completo. Nas paredes, as faces expressivas das tradicionalíssimas máscaras por vezes metiam medo, outras vezes pareciam querer contar algo. Como havia previsto, fiquei particularmente marcado por aquelas máscaras. Em geral, essa forma de arte exerce uma espécie de poder sobre as pessoas. Em Veneza, têm-se a impressão de que espreitam, as máscaras. Alguns manequins ficam postados de pé, enrolados em mantos antigos, a cabeça baixa. Assustador e sedutor.

Obviamente, muitos turistas — o ponto negativo, apesar de pensar que, não fosse o contínuo movimento animado dos visitantes, Veneza seria uma cidade sombria, ameaçadora. Alguns demonstram saber onde estão, são até mesmo reverentes. Mas a grande maioria não passa de embasbacados transeuntes, preocupados quase que exclusivamente em comprar, ou em “curtir” a cidade sem ao menos se perguntar por que ela existe, por que é assim. Não lhes vem à mente, estou certo disso, por que estão ali, a não ser o efeito que causa dizer que já esteve em Veneza.

Não visitei o Harry’s Bar, onde muitas figuras deram o ar glamouroso de sua graça — lembro positivamente de Heminghway, um mestre da escrita. Já a Piazza San Marco (desenhada por Leonardo Da Vinci) me pareceu menor, enquanto o campanile se revelou muito maior do que tinha em mente. Não entramos na Basílica, em parte por causa da fila, mas também porque fechava cedo e não consegui descobrir onde raios deveria guardar a mochila que levava nas costas. Por fora é absolutamente linda, bizantina até o último milímetro, com os quatro cavalos dourados (réplicas, porque os originais estão protegidos no interior) fruto do botim da Quarta Cruzada no alto da fachada. O Palácio Ducal, um primor. A Ponte dos Suspiros prejudicada pelos painéis protetores por causa da reforma que fazem no entorno. A margem, com as gôndolas “estacionadas”, belíssima mesmo com o céu cinza-chumbo — nem a chuva de verão, que Vivaldi simbolizou nas Quatro Estações, prejudicou nossa impressão da cidade.

Não andamos sobre as águas, nas gôndolas de um design de sonho. Fica para a próxima vez, que serão muitas. Essa noção esteve sempre presente, afinal moramos a 40 minutos de distância. O que eu espero que se reduza a nada, porque desde o último domingo desejo visceralmente viver em Veneza — se DM, com toda aquela raiva e estreiteza de pensamento pôde, por que também não eu?

Fiquei pensando na ironia daquela suspeita quase desdenhosa do geógrafo ravenense. “É, parece que aquelas ilhas se tornaram uma linda cidade. A mais bela que já vi.” | Juliano Bruni

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Rodinhas

Martedì, 26 Maggio 2009 · 2 Commenti

Padova é uma cidade universitária. O ateneu, como chamam aqui, faz o grosso da economia da cidade girar. A própria universidade, fundada em 1222, é um grande universo interno, mas os jovens que a mantém viva movimentam ainda o segmento do entretenimento padovano. O spritz, verdadeira instituição vêneta, é bebido por milhares de ragazzi e ragazze nos fins de tarde, no inverno e principalmente no verão. Nossa vizinhança aqui no bairro Portello é basicamente formada por universitários, já que a região é o quartel-general da maior parte das faculdades.

Mas há uma face melancólica nesse contexto animado de almas juvenis a passar para lá e para cá. Como é muito comum na Itália, onde os estudantes precisam se deslocar para encontrar universidades que ofereçam os cursos especificos, o vai-e-vem não acontece apenas dentro da cidade, mas também para fora dela. O Portello, sendo o centro nevrálgico da universidade, é o que sofre mais com o êxodo dos finais de semana. Toda quinta-feira, o movimento de retorno provisório tem início. A melodia mais ouvida então é o ruído árido e constante das rodinhas das malas. Deslizam em carreata sem fim rumo à estação, puxadas displicentemente.

Nos sábados e domingos, as ruas em torno à nossa casa estão vazias e desoladas. No inverno era muito pior — não havia os numerosos grupos de turistas a se movimentar lentamente. Mas ainda assim é triste. O espaço fica então completamente aberto aos traficantes magrebinos que giram na área como hienas em torno da carcaça (o que fazem também durante as noites da semana, mas sem o efeito desanimador de se sentir solitário em meio àquilo tudo).

É possível, agora que estamos aqui já há meio ano, marcar a passagem da semana através do som das rodinhas. Não é harmonioso, melódico, mas é um som que transmite uma sensação. Talvez de solidão. Ou abandono. Nós estamos lentamente (muito lentamente) nos inserindo no contexto. Não pertencemos completamente a ele ainda. | Juliano Bruni


# IMPORTANTE: nossas postagens estão numa periodicidade bastante irregular porque não conseguimos ainda uma estabilidade para podermos nos dedicar a escrever como deve ser, com calma e tranqüilidade. Talvez inclusive a Veri fique ausente de Favole Italiane um período maior. Tentaremos manter o blog sempre ativo, mesmo que com grandes espaços entre as postagens.

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Primavera-verão

Martedì, 26 Maggio 2009 · 1 Commento

Meu entusiasmo com a primavera européia veio cedo demais. Na semana seguinte a meu último texto, uma onda de calor se espalhou pela península provocando um alerta nacional. Dizem os especialistas — e os cito porque o caso é para estudiosos — que se trata de uma temperatura completamente atípica, muitíssimo “acima da média para o período”. O fato é que os termômetros estão já há quase duas semanas acima dos 30 graus. Ri, e ri muito, da minha própria ingenuidade: por mais que no Rio Grande do Sul estejamos nas franjas dos trópicos, as tais massas de ar quente vinham do eixo central da Terra e duelavam com as massas de ar frio (pelas quais torcia visceralmente) provenientes da Antártida, Patagônia, Argentina. Aqui o ar quente vem do deserto do Saara, o que é quase uma grife.

Evidentemente poderia ficar pior quando se trata de calor — e sobretudo quando eu o estou sofrendo. A Pianura Padana, região geográfica que corresponde ao vale do rio Pó e da qual Padova é uma espécie de capital vêneta, é praticamente a única parte baixa do terreno italiano. Todo o resto do país está sobre montanhas — os Alpes, longitudinalmente ao norte; os Apeninos de norte a sul. A névoa padana de inverno é um símbolo da característica de planície. No verão essa umidade transforma-se numa massa dispersa, mas que de tão consistente chega a alterar a luz solar que chega ao solo. É uma luminosidade etérea, como se viu em algumas passagens do Senhor dos Anéis, algo fosco, menos brilhante. O céu, azul vivo no início da primavera, tornou-se nesses dias de um branco levemente celeste.

Como todo calor úmido, tem-se a sensação de que o próprio corpo é uma espécie de esponja. As pernas ficam bambas, a cabeça dói com uma pressão constante. Impossível ler um livro, caminhar na rua, sentar-se na frente do computador. Tudo isso há um mês do início do verão. Parece que amanhã um vento ameniza a temperatura. Vem da Rússia, o tal vento. O que faz um novo duelo, Saara x Sibéria, para o qual já escolhi meu lado. | Juliano Bruni

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A Primavera

Martedì, 05 Maggio 2009 · 2 Commenti

Galhos secos, troncos retorcidos, chão húmido, ar frio, paisagem cinzenta. De repente, num curto espaço de alguns dias — meados de abril —, a natureza literalmente explode. A relva tranforma-se em tapete macio, as árvores quintuplicam seu perímetro, o ar corre fresco, o céu mostra o seu azul e as muitas flores suas muitas cores. Faz sol na primavera européia. O clima é ameno. A cor é o verde.

Cresci, propositalmente ou não, num ambiente eurocêntrico. A despeito de alguns filmes Sessão da Tarde — que, a rigor, eu não podia assistir —, todo meu ambiente infantil e até juvenil era culturalmente europeu. Os muitos livros para crianças que ganhava contavam as histórias dos Irmãos Grimm e outras lendas antiquíssimas e logo eu estaria lendo obras mais maduras sobre os reinos e, consequentemente, sobre os países. Nesse contexto, me sinto bastante realizado em vivenciar um mundo que sempre me encantou. As estações e a representação máxima do mundo físico que proporcionam é talvez um dos mais intrigantes aspectos desse “novo mundo”. Mesmo na “temperada” região meridional do Brasil, não é costume da natureza respeitar uma ordem climática (costumo dizer que temos um outono e três verões). E eu estava curioso, mesmo que se tenha perdido — sobretudo no Ocidente industrial — a referência do clima e das estações como algo digno de nota no dia-a-dia das pessoas. Não me importa que o tempo climático tenha deixado de ser referência com a modernidade. Sob muitos aspectos, vivo no passado. Acho que seria interessante nos perguntarmos como era o mundo pré-industrial.

O inverno é frio, mas acima de tudo é constante. Todas as três estações que vivi já aqui são empenhadas em se autorepresentar. Vi neve por três vezes (novembro, dezembro e janeiro), outras tantas algo parecido. Mais que a sensação térmica, é o ar gelado que causa impressão no inverno: é como uma parede invisível, contra a qual se deve forçar. (Eu estava no céu!) Então essa parede foi suavizando-se, o ar tornou-se cristalino, reluzente, como se brilhasse sozinho. Diría-se que era feito de cristais da Boêmia. Ainda assim as plantas — a natureza terrestre, digamos — esperava. Viu-se semanas estranhas. Parecia que as árvores cochichavam. Conspiravam. Os pássaros por vezes cantavam, mas em geral mantinham um silêncio quase nervoso, tenso. Era março.

O caminho entre nossa casa e o grande hipermercado onde fazemos la spesa domestica é bastante agradável e me lembra as paisagens de minha imaginação infantil. Uma estradinha não muito comprida, mas que adentra um pequeno bosque, costeada por árvores altas e, em um dos lados, a riva de um dos canais de Padova. Há algumas semanas, o cenário era aquele da primeira linha deste texto: burtoniano. Passei por ele hoje e estava satisfeito consigo mesmo: resplandecente e vaidosamente verde e fresco.

Parênteses (quase) inútil. Não me entendam errado, a mudança de hemisfério não alterou minha personalidade: continuo preferindo o inverno, o frio e tudo o que se pode fazer no contexto favorável que criam, quase como um estilo de vida. Mas devo dizer que é bastante gratificante e agradável a (até agora) primavera européia. Tudo isso ganha sentido apenas em confronto com o clima gaúcho, e meridional como um todo. A questão não está apenas na sensação térmica. Está na completa alteração do ritmo da vida — da natureza, mas também das pessoas.

Enfim compreendi o significado dos ciclos das estações e me peguei surpreendido pela satisfação em ver o sol. Entendi o sentido de se aguardar tanto o “renascer” que é o fim do inverno. Os antigos atribuíam valor quase de sentimento humano ao rigor do clima — os mais detestados sendo o inverno e o verão, evidentemente. Agora tudo isso foi compreendido. Pode parecer tolo, mas isso é um eco do passado, o que me é caro.E, a rigor, penso que não vivemos tão independentes da natureza como pensamos.

Estou feliz em ter três estações no ano. O verão, não adianta, continuo dispensando. | Juliano Bruni

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Salvem Saviano

Martedì, 28 Aprile 2009 · Lascia un Commento

roberto_saviano1Roberto Saviano tem 29 anos, escreveu Gomorra. Quase 2 milhões de cópias vendidas somente na Itália e traduzido em 43 línguas. Hoje ninguém sabe onde vive Saviano. O escritor e jornalista foi jurado de morte pela Camorra. É escoltado por sete policiais, permanentemente, 24 horas por dia. De tempos em tempos, muda de casa, às vezes precisa fugir para o exterior.

Esse é o preço a pagar por quem desafiou a máfia italiana. O jornalista usou literatura e reportagem para descrever a realidade do crime organizado. O livro fala de mansões dos chefões da máfia, criadas como cópia de Hollywood, de áreas rurais cheias de lixo tóxico dispensado por parte da Europa, de uma população que é conivente e muitas vezes protege esse tipo de criminalidade. O autor descreve como são recrutadas crianças e como as fazem acreditar que a única alternativa de vida seja aquela, de associar-se à máfia, e que o único modo verdadeiro de morrer como um homem de verdade seja o de ser assassinado. Um boss mafioso, hoje preso, disse que Saviano não terá chance: assim que todos esquecerem seu livro, que ele não estiver mais nos jornais ou na televisão, a máfia o matará.

Segue uma declaração de Saviano, dada em 2008:

Penso de haver direito a uma pausa. Tenho pensado, durante este tempo, que ceder à tentação de recuar não fosse uma boa idéia, não fosse antes de tudo inteligente. Achei que fosse muito estúpido – além de indecente – renunciar a si mesmo, deixar-se dobrar por homens de nada, gente que te despresa por aquilo que pensa, por como vive, por aquilo que é na mais íntima das fibras, mas, nesse momento, não vejo alguma razão para obstinar-me em viver desta maneira, como prisioneiro de mim mesmo, de meu livro, de meu sucesso. Vá tomar no cu o sucesso! Quero uma vida! Quero uma casa! Quero me apaixonar, tomar uma cerveja em público, ir em uma livraria e escolher um livro lendo o resumo da capa. Quero passear, pegar sol, caminhar na chuva, encontrar as pessoas sem medo e sem assustar minha mãe. Quero ter entorno a mim meus amigos, e poder rir, e não ter que falar de mim, sempre de mim, como se eu fosse um doente terminal e eles fossem constrangidos a uma chata visita inevitável. Merda, tenho só 28 anos! E ainda quero escrever, escrever, escrever porque é minha paixão e minha resistência e eu, para escrever, preciso colocar as mãos na realidade, me esfregar nela, sentir seu cheiro, seu suor e não viver como se estivesse esterelizado em uma câmera hiperbárica, dentro de uma caserna de polícia – hoje aqui, amanhã longe 200 quilômetros – deslocado como um pacote sem saber o que aconteceu ou o que pode acontecer. Em um estado de confusão e precariedade perene que me impede de pensar, de refletir, de me concentrar, qualquer que seja a coisa a fazer. Às vezes me surpreendo a pensar nessas palavras: quero de volta minha vida. Repito a mim mesmo uma a uma, silenciosamente.” | Veridiana Dalla Vecchia

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“Não, obrigado. Eu sou romeno”

Venerdì, 17 Aprile 2009 · 2 Commenti

A Itália exibe ad nauseam aquela reação peculiar de alguém que é inserido repentinamente em um contexto diferente e estranho. Um amigo italiano nos contou histórias de quando era gurizote, nos anos 60. Falava da extrema humildade no modo de vida dos italianos do norte. Hoje a região é uma das mais industrializadas da Europa, anos-luz à frente da parte meridional da Bota, da qual alguns exacerbados preconceituosos defendem uma suposta “independência”. A Itália, falando como um todo, é um país rico, membro do G7 e – chego ao ponto – destino de um mar de imigrantes. Alguns são como nós, os chamados oriundi, o que determina uma certa interpretação – nem tão positiva, mas definitivamente muito melhor que a média dos imigrantes sem vínculos, mesmo que remotos, com a Itália. E é dessa relação entre italianos nativos e stranieri (o termo já diz muito) que tiro algumas lições. Aprende-se muito quando nosso ponto de observação encontra-se estrategicamente deslocado de nós mesmos: não somos italianos, mas não somos stranieri. É uma sensação estranha. Algumas dessas lições são, de certa maneira, uma forma de sofrimento. Muitos italianos fazem questão de demonstrar estranheza (e superioridade) na convivência com os estrangeiros. Esses, por sua vez, na maioria das vezes introspectam uma inferioridade que não têm, afinal de contas.

Não é a regra, mas um evento – ocorrido ontem e que me foi narrado – me marcou. Num centro comercial de Padova, um rapaz recebe um panfleto promocional de internet e tv a cabo da mão de uma funcionária. Ela, italiana: “Estás interessado, posso te explicar como funciona”. A resposta do rapaz veio em posição extremamente humilde e inferiorizada, para espanto da própria funcionária. “Não, não, obrigado. Eu sou romeno.” | Juliano Bruni

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Udinese x Werder Bremen: crônica de uma grande partida

Venerdì, 17 Aprile 2009 · 1 Commento

Fabio Quagliarella marca o segundo gol da Udinese. Foto uefa.com

Fabio Quagliarella marca o segundo gol da Udinese. Foto uefa.com

Udinese e Werder Bremen jogaram a partida de volta pelas quartas-de-final da Copa Uefa ontem à noite, no estádio Friuli, a pouco mais de uma centena de quilômetros de minha casa. Talvez eu esteja condicionado pelo longuíssimo tempo sem dedicar a devida atenção ao futebol, mas acho que não se trata disso. Vi um grandíssimo jogo, capaz de fazer a narração italiana – sempre tão contida, beirando o apático até mesmo para mim, que não aprecio grandes gritos nas transmissões – trair seu comportamento normal e vibrar. Vibrar muito. Uma partida empolgante, mas acima de tudo sincera. Parecia saída de outros tempos, não sei bem quais nem por quê. Fato é que me pareceu um espetáculo deslocado do contexto recente do futebol. A trama dos acontecimentos – que é o que posso oferecer num quadro suscinto – não dá uma noção satisfatória.

Sei que a muitos o embate não oferece uma grande expectativa, mas devo dizer que ambas as equipes, a despeito de suas campanhas ruins nos campeonatos caseiros, têm jogadores qualificados. O Werder mais que a Udinese, que, no entanto, conseguiu compôr um grupo aguerrido. Vestiam a camisa verde Diego “ex-Robinho”, Naldo (zagueiro recentemente convocado pela Seleção), Frings (ótimo volante da seleção alemã), Mertesacker (zagueiro também ele titular da Alemanha na última Copa), o peruano Claudio Pizarro, que andou por Bayern e Chelsea. A squadra italiana – nota triste e significativa do que já escrevi há alguns posts: é o único clube italiano a se manter nas copas européias nesta temporada e, como se verá, por pouco tempo – conta com o ótimo atacante Quagliarella (que já interessou a meio mundo), um Asamoah que não é aquele primeiro negro a jogar pela Alemanha mas que tem grande qualidade técnica, Floro Flores (atacante napolitano que já despertou interesse dos grandes), Di Natale (campeão com a Nazionale em 2006) .

Os alemães haviam vencido a andata por 3 x 1, o que, com o saldo qualificado, obrigava a Udinese (ex-clube de Zico na metade dos anos 80, se muito não me engano) a vencer em casa por 2 x 0 – ou saldo superior a esta margem em caso de gol adversário. O aspecto mais relevante, na minha opinião, foi o ambiente combativo que os tifosi criaram e que, por conseqüência, acabou por contagiar a equipe em campo. A própria mídia italiana reconhece que, seja pela arquitetura dos estádios (se comparado aos da Liga inglesa, o usual padrão de comparação) e o comportamento dos torcedores, a Itália não consegue “impressionar” os visitantes tanto quanto esses impressionam os italianos quando saem para jogos no resto da Europa. O que é verdade: os estádios italianos são deficitários, para dizer pouco, e o público um tanto distante – à parte as chamadas curvas, o universal local (atrás das goleiras) onde os torcedores mais participativos se reúnem. Excepcionalmente, o estádio Friuli fervilhava ontem à noite.

A Udinese marcou com um fantástico chute de fora da área de Inler aos 15 minutos. Diego, logo depois, aproveitou uma falha da zaga italiana e empatou com muita categoria. Então apareceu Fabio Quagliarella, marcando dois gols absolutamente improváveis e o placar de 3 x 1 levava a decisão para a prorrogação. A esta altura a empolgação estava nas nuvens. O jogo era apetitosíssimo, muito movimentado, poucos erros, e com conclusões a gol a cada movimento ofensivo. Mesmo com a Udinese mantendo o desempenho, no segundo tempo Diego marcou o segundo para o Werder num lance confuso. Mais alguns minutos e o nervosismo tomou conta da Udinese, que concedeu um pênalti. Handanovic, um jovem e qualificado goleiro bósnio, defendeu, mas no escanteio que se seguiu o time alemão empatou. Acabou assim e a Udinese estava desclassificada da Copa Uefa. No estádio comunale Friuli ressoava alto o rumor das palmas, não apenas para os atletas da casa, mas pelo espetáculo em si.

Normalmente, um placar de 3 x 3 exprime uma tensão e uma movimentação que de fato ocorrem em partidas que chegam a este escore. Mas Udinese x Werder Bremen superou essa capacidade de representação. Pertencia a outro patamar, talvez o de Porto x Manchester United que assisti na noite de quarta-feira, mas que foi decepionante no que diz respeito à emoção e qualidade. Chego até a pensar que grande parte dos elementos que tornaram uma partida de quartas-de-final de Copa Uefa tão atrativa seja exatamente o fato de acontecer num contexto mais “real”, mais próximo do futebol como “simples” competição esportiva. Não estou com isso criticando a qualidade de Porto e Manchester United. Tampouco quero dar contornos mais densos a uma partida entre equipes futebolisticamente periféricas numa noite chuvosa em uma cidade futebolisticamente periférica. Apenas acho que talvez devemos nos atêr menos ao que nos diz o marketing esportivo, ou o lobby midiático, e olhar com carinho para aquilo que nos parece menor – e periférico. Mesmo sendo representado após o ato principal que foi a rodada da Champions, Udinese x Werder Bremen foi, me parece, o centro, a essência do futebol nessa semana. | Juliano Bruni

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Uma outra L’Aquilla

Lunedì, 13 Aprile 2009 · 2 Commenti

L’Aquilla foi parcialmente destruída, Onna reduzida a escombros, outra pequenas cidades do entorno também não tiveram melhor sorte. É preciso ocorrer uma tragédia dessa proporção, com 289 mortos – último número oficial – e cerca de 70 mil pessoas desabrigadas, para que se comece a pensar em precaução. Um terremoto como o que atingiu a região de Abruzzo, de 5,8 pontos na escala Richter (6,3 segundo alguns), não derrubaria uma única casa na Califórnia ou no Japão, segundo repetiu incessantemente em diversas redes de televisão, o geólogo italiano Mario Tozzi.

Uma imagem me marcou nesses dias: em uma rua cheia de destroços, uma casa de pé, a única que tinha sido construída obedecendo a critério anti-sísmicos. Na Itália, país cujo 70% do território é sujeito a terremotos, poucos são os cuidados tomados para evitar desastres como esse. E não foram poucos os avisos. Em 1908, morreram 82 mil pessoas em Messina (na região Sicília); em 1915, um terremoto matou 23,6 mil pessoas em Avezzano (Abruzzo); em 1976, na região Friuli, 976 mortos; 1980, em Irpina (Reggio Calabria), 2.735 vítimas fatais; 1990, Sicília, 17 mortos; 1997, Umbria e Marche, 11; 2002, San Giuliano di Puglia (Molise), 29.

Muitos prédios que desabaram em Abruzzo eram novos, das décadas de 70, 80 ou 90. Alguns bombeiros que trabalharam para tentar salvar quem estava embaixo dos destroços denunciaram a precariedade do material usado nas construções: “O cimento se esfarela ao pegá-lo com a mão!”. É impossível não se perguntar de quem é a responsabilidade. Em alguns casos, os indícios para alcançar os responsáveis são inúmeros: o material de baixa qualidade, as regras de construção anti-sísmica não respeitadas, as verbas não aplicadas, a falta de verba e de fiscalização.

O cenário se repete em outras partes da Itália. Catania é a cidade com maior risco sísmico da Europa devido a uma falha geológica que se encontra a 20 quilômetros da costa oriental da Sicília. Por sorte ainda não houve o grande terremoto, porém, quando ele ocorrer, muito provavelmente a cidade desmoronará. A estrutura dos prédios não está preparada e muito dinheiro já foi enviado para que fossem feitos reparos. Parece a seca do Nordeste brasileiro, o dinheiro para resolver o problema sempre sai, mas quase nunca chega ao destino.

Depois do terremoto de 1990, em Santa Lucia, na Sicília – quando morreram 17 pessoas e 15 mil ficaram sem casa -, o governo colocou a disposição um bilhão de liras para ser investido na reconstrução e prevenção anti-sísmica de construções estratégicas (hopitais, corpo de bombeiros, polícia e prefeitura) que devem ficar de pé para coordenar um possível caso de emergência. O segundo grupo a ser reestruturado seriam as escolas. Porém, muitas delas estão caindo sozinhas, mesmo sem terremoto.

Conforme o repórter Sigfrido Ranucci, em edição de Report que foi ao ar na Rai Tre dia 15 de março, o governo Silvio Berlusconi deu em 2002 ao então prefeito de Catania Umberto Scapagni poderes especiais para enfrentar a “emergência tráfego e segurança sísmica”. O prefeito poderia dispor de 850 milhões de euros sem ter que passar pelo Conselho Comunal (equivalente à Câmara de Vereadores). A reestruturação das escolas de Catania deveria estar incluída no plano anti-sísmico. Porém, como mostrou Report, não há sinal de reestruturação: fios elétricos expostos, infiltração e escadas de incêndio que terminam em janelas gradeadas são apenas algum exemplos.

Os fundos para a proteção anti-sísmica foram gastos, conforme o ex-assessor para Proteção Civil de Catânia Paolino Maniscalco, para fazer a rua De Gasperi, “com a absurda motivação de que este lugar onde estamos poderia estar a risco de tsunami”. Catania corre risco de tsunami, mas certamente não no lugar de onde falam o repórter e o entrevistado. “Estamos a 10 ou 12 metros acima do nível do mar”, explica Maniscalco, de cima de uma espécie de penhasco. A rua De Gasperi foi construída com o propósito de ser uma via de fuga em caso de tsunami, porém a obra está incompleta. O dinheiro do fundo para proteção anti-sísmica serviu para construir uma rotatória e vários estacionamentos, alguns abandonados logo depois da inauguração. Catania tem 22 estacionamentos começados e cinco em funcionamento.

A cidade também apresenta gravíssimo problema com o sistema de esgoto, que nunca é resolvido. Como disse Milena Gabanelli, apresentadora de Report, “o dinheiro chega, para arrumar o esgoto, e tu, ao invés, o gasta para alimentar um sistema que garante teus votos. O sistema de esgoto deverá sempre ser feito, e tu pedirá fundos para isso, e eles virão, e tu gastará com outra coisa…”. Rede de esgoto e reestruturação anti-sísmica não são visíveis, não garante votos. | Veridiana Dalla Vecchia

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O desaparecimento dos fatos

Domenica, 29 Marzo 2009 · 2 Commenti

O bom jornalismo não depende de convicção política, mas de honestidade e respeito à verdade factual. Infelizmente acontece, tanto na direita quanto na esquerda, que às vezes os fatos “desapareçam”, as abordagens e mesmo as condenações judiciais se invertam. As justificativas para se esconder os fatos são variadas, mas todas passam por uma questão principal, a faltar de amor à profissão e de respeito a seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Cito Marco Travaglio, jornalista italiano:

Há quem esconda os fatos porque não os conhece, é ignorante, despreparado, descuidado e não tem vontade de estudar, de informar-se.

Há quem esconda os fatos porque procurar as notícias cansa e até se corre o risco de suar.

Há quem esconda os fatos porque tem medo de contestação, de causas civis, de pedidos de resarcimento milionários, que colocam em risco o salário e deixar o editor com raiva, de saco cheio de ter que pagar advogados por causa de qualquer porra-louca da redação.

Há quem esconda os fatos porque do contrário não seria convidado mais a certos salões, onde se encontram sempre líderes de direita e líderes de esquerda, controladores e controlados, guardas e ladrões, putas e cardeais, príncipes e revolucionários, fascistas e ex-lutadores, onde todos são amigos de todos e é melhor não descontentar ninguém.

Há quem esconda os fatos porque contradizem a linha do jornal.

Há quem esconda os fatos porque também a si mesmo porque tem medo de ter que mudar de opinão.

Há quem esconda os fatos porque depois, quem sabe, possa fazer uma consultoria para o governo ou para a câmera de comércio ou com a união industrial ou com o sindicato ou com o banco da esquina.

Há quem esconda os fatos porque nasceu escravo e, como dizia Victor Hugo, ‘existem pessoas que pagariam para se vender’.” | Veridiana Dalla Vecchia

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Os fins justificam os meios (ou por que clonar o mamute?)

Venerdì, 20 Marzo 2009 · 5 Commenti

Cito Maquiavel no título não para tratar de política, como poderia se esperar se não fosse pelo mamute. Quero falar de ciência. Há alguns meses esse assunto me persegue, em conversas e programas de televisão, mas principalmente em leituras que aparentemente não estão ligadas ao tema.

Em um programa da TV italiana, cientistas explicavam como, em poucas décadas, a Humanidade será capaz de fazer reeviver o mamute siberiano a partir do mapeamento de seu DNA encontrado em fósseis. Em nenhum momento os entusiasmados entrevistados indicaram o porquê. Me pergunto: para quê clonar o mamute?

O sociólogo polonês Zygmun Bauman analisa, no livro Modernidade e Holocausto, como a matança em massa só poderia ter ocorrido em uma época racional como a nossa. Vocês devem estar se perguntando o que tem a ver o Holocausto com o mamute. A Ciência. Ela é o ponto de ligação. Entre os vários aspectos apontados por Bauman como facilitador da tragédia provocada pelo nazismo a ciência é um dos mais pertubadores. A amoralidade científica colaborou, mesmo que não decisivamente, para a aceitação da Solução Final (o extermínio dos judeus) do regime de Adolf Hitler. Qual a moral de clonar o mamute?

A ciência moderna fez sua história como a vitoriosa batalha da razão contra a irracionalidade. Para Bauman, a moral e a religião, como não podiam racionalmente legitimar as exigências humanas, foram condenadas. Neste processo, a ciência “tornou-se cega e muda”. “Viu a escravidão nos campos de concentração como uma oportunidade única e maravilhosa para conduzir suas pesquisas médicas com vistas ao avanço do conhecimento e – claro – da humanidade.” Em troca do financiamento para suas pesquisas, os cientistas alemães – quando não participavam ativamente da execução da política do III Reich – pelo menos tiveram a responsabilidade de dar de ombros ao que ocorria. A ciência estava sendo desenvolvida, isso era o que importava.

“Na melhor das hipóteses, o culto da racionalidade, institucionalizado como ciência moderna, revelou-se impotente para impedir o Estado de partir para o crime organizado; na pior, revelou-se instrumental na produção da transformação.” | Veridiana Dalla Vecchia

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Sacchi

Venerdì, 13 Marzo 2009 · 1 Commento

Gosto de Arrigo Sacchi, o responsável pelo grande Milan de fins dos anos 80 e início dos 90. Na mentalidade majestosa sul-americana de defensores do futebol alegre e sincero contra os cínicos, sisudos e pernas-de-pau europeus, esquecemos muitas vezes de render homenagem e justiça a quem merece. Claro que discordo da “humilde arrogância” platina e brasileira, mas reconheço que demorei a notar outros gênios da casamata além de Rinnus Michels, meu ídolo teórico. O Milan de Sacchi, além de vir a ser um de meus rivais italianos, encantava minha paixão juvenil pelo futebol. Naquele tempo, a Bandeirantes entrava para a história da crônica esportiva brasileira ao transmitir o campeonato italiano (narração de Sílvio Luís e comentários de Sílvio Lancelloti), domingos ao meio-dia e era ali que via o Milan desfilar. Van Basten (meu inspirador, que me demonstrou a aptidão de alguém de quase dois metros de altura para jogar um belo futebol; aqui uma amostra), Gullit, Rijkaard, Baresi, Costacurta, Maldini, Ancelotti ainda jovem e o esquema tático inovador de Sachhi – a marcação por zona – dominaram meu ideário do futebol (a coisa mais importante da vida) até Felipão restabelecer meu terroir gaúcho. Sacchi foi um personagem contraditório, polêmico e quase folclórico (treinando a Azzurra utilizou 77 jogadores em 53 partidas e jamais repetiu a mesma escalação), mas foi capaz de acrescentar algo a uma cultura futebolística hostil à novidade. Dizem aqui que Sacchi “matou o catenaccio“, o que já é um grande feito. | Juliano Bruni

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Outrora rico

Venerdì, 13 Marzo 2009 · Lascia un Commento

A derrocada italiana na Champions League foi lida de forma competente pelo único grande clube do país que não a disputava nesta edição. O milanista Adriano Galliani, presidente em substituição a Berlusconi (não que precisasse realmente, já que este é onipresente, da Sicília ao Vale D’Aosta), afirmou que os resultados em campo refletem a organização do futebol nacional de Inglaterra e Itália. Não reinventou a roda, mas citou os estádios repletos e bonitos, os muitos grandes jogadores e a saúde financeira dos clubes da terra do Oasis. Nem precisou lembrar, portanto, as arquibancadas de estádios decrépitos cada vez mais vazias nos campos da Bota, os escândalos, sem falar da neurótica psicologia do futebol daqui: existe uma verdadeira psicose coletiva na análise da arbitragem, nos supostos “esquemas” de favorecimento para determinadas agremiações, e até na confecção da tabela. Penso que, como brasileiro, esse choque de cultura futebolística não seria tão grave, não tivesse lido o já referido Calcio, história do esporte que fez a Itália, do historiador inglês John Foot. Esse comportamento remonta às origens do calcio e dificilmente mudará. Recentemente a própria imprensa esportiva, na figura da laboriosa redação esportiva da RAI Due, deu-se conta da histeria – eles chamaram de “maneira como encaramos o jogo” – e produziram uma série de matérias sobre como é tratada a questão do juiz nas ligas “ricas” da Alemanha (o eterno ponto de referência italiano), Inglaterra e Espanha, além do aspecto administrativo e comercial. Concluíram que sim, talvez a “maneira de encarar” os erros arbitrais aqui seja demasiadamente carregada e negativa. Verdade, parece que isso se reflete na presença de público, que, não temos como contestar, anda mal, etc.

Parece mentira, mas após a “desclassificação honrada” da Juventus, da “falta de sorte romana” e da “óbvia superioridade” adversária da qual foi vítima a Inter fala-se aqui como normalmente explicamos uma derrota sul-americana em um Mundial Interclubes frente aos europeus ricos e estruturados: coisa natural e previsível, na qual a verdadeira apoteose seria o sucesso italiano. Acabo de ver uma bela entrevista de Arrigo Sacchi na tv em que disse literalmente: “colhemos o que semeamos”. Confesso que estranho esse comportamento, profundamente. O “complexo de vira-lata” sente-se também fora de campo: independentemente dos valores, o “fico” de Kaká foi reverenciado pela mídia. O outrora riquíssimo futebol da Itália viu-se durante uma longa semana com a respiração suspensa, esperando a palavra final do craque brasileiro ao convite do Manchester… City. Evidentemente, qualquer clube do planeta pode-se ver refém de um sheik árabe enlouquecido e sedento de glória futebolística. Mas fato é que a potencial vítima de sua vontade de gastar milhões deva ser, necessariamente, atrativa – sob diversos aspectos, não apenas esportivos (no decênio passado, o filho do líder líbio Ghedafi comprou parte da Juventus, mas duvido que repetiria a tática hoje). Não estou defendendo a posse de clubes tradicionais de futebol por qualquer um que tenha na conta alguns milhares, pelo contrário. Porém não se pode ignorar que o nível de business no futebol moderno indique uma, digamos, atratabilidade. A Itália, a despeito do sucesso da Nazionale de 2006, parece estar condenada ao segundo escalão do futebol europeu. A menos que se faça alguma coisa. | Juliano Bruni

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Urgência Imigração

Lunedì, 09 Marzo 2009 · 4 Commenti

Não tenho parâmetros pessoais para julgar qual era a relação, aqui na Itália, entre imigrantes, italianos, imprensa e governo antes desta crise mundial. Quando cheguei, no final de outubro, o assunto já era esse há algum tempo. No entanto, tenho indícios retirados das atuais reações e dos textos publicados pela stampa italiana. O tema imigração é amplo e as abordagens, múltiplas. Trata-se de unanimidade, no entanto, que o problema existe e precisa ser enfrentado.

O governo Berlusconi, não surpreendentemente, escolheu a pior forma possível de responder à questão. Há duas semanas, a Câmara aprovou seu Pacote Segurança, quase todo de autoria da Lega Nord. Entre os pontos absurdos do texto, dois me parecem perigosamente reacionários. Foi aprovada a ronda dos citadinos, na qual um grupo de cidadãos, civis, poderá sair à noite pelas ruas das cidades italianas para fiscalizar, espreitar e denunciar. Civis com papel de polícia, mas sem seus poderes, obviamente sem permissão de usar armas. Embora alguns dispostos a rondar por aí já tenham declarado ter posse de arma. Os alvos preferidos, sem dúvida, serão mendigos e imigrantes. O risco dessa possibilidade de “vigilância” ser fonte de instrumentalização de partidos políticos é fortíssimo.

Outro ponto do Pacote: os médicos que atenderem imigrantes irregulares poderão denunciá-los às autoridades. Os espertos do governo acreditam que assim conseguirão expulsar os irregulares. Não passa pela cabeça deles que a maioria das pessoas simplesmente deixará de procurar os hospitais, arriscando a vida com medo de ser repatriada. Menos ainda eles pensam que muitos podem ser portadores de doenças contagiosas, colocando em risco um número muito maior de pessoas, que doenças não existentes na Itália sejam trazidas e disseminadas. Além disso, existe a real probabilidade de que se forme uma rede sanitária paralela sem nenhum tipo de controle estatal.

À rebelião dos médicos contra a medida, o ministro do Interior, Roberto Maroni, respondeu que “em TODOS os países da Europa existe a situação que queremos introduzir”. Na TV, nenhuma desmentida, ninguém ousou desdizer o ministro. Um jornalista do l’Unità, no entanto, resolveu conferir a informação de Maroni. Em sete dos principais países do Velho Continente – França, Reino Unido, Espanha, Bélgica, Holanda, Portugal e, até o momento, Itália – não existe a possibilidade para os médicos de desrespeitarem o segredo profissional denunciando irregulares. Formalmente diferente é a Alemanha, onde uma lei de 2004 obriga os “escritórios públicos” a informar as autoridades sobre estrangeiros irregulares. Porém, mesmo se os hospitais sejam considerados “escritórios públicos”, os médicos são protegidos por seu código profissional. Ou seja, um irregular que vai a um médico privado de uma associação de proteção dos direitos dos estrangeiros não corre nenhum risco. Mesmo nos hospitais alemães, segundo a Cruz Vermelha, não há nenhum caso de médico que tenha desrespeitado seu código deontológico para denunciar um imigrante cladestino.

O Pacote Segurança é apenas uma das medidas de repressão do governo. Depois, há a morosidade inacreditável em relação à regulação dos imigrantes e o medo dos italianos para com os imigrantes e o incentivo a esse temor por parte da televisão. Qualquer sondagem sobre imigração recolhe resultados muito negativos em relação ao estrangeiro. No entanto, as pesquisas com foco local, relacionada a situações pessoais, mostram o contrário. É como se dissessem: “os imigrantes são uma ameaça, mas os que eu conheço são pessoas de bem”.

A crise aumenta a sensação de insegurança. E ela não é só econômica, mas também social. Em momentos assim, fica fácil encontrar um bode expiatório. Nesse caso, o lado mais fraco da corda é o imigrante, e não só o irregular. | Veridiana Dalla Vecchia

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Eu já sabia II

Venerdì, 06 Marzo 2009 · Lascia un Commento

“Folza Plato!” A torcida da Fiorentina ironiza a grande comunidade chinesa residente na cidade rival no clássico toscano contra o Prato, temporada 2002-2003.

“Andatevene senza fretta, potete votare anche domani” [Vão sem pressa, podem votar amanhã também]. Faixa da torcida da Lazio endereçada à comunidade judaica em 1994, quando as eleições políticas foram marcadas para dois dias afim de de não coincidir com o ano-novo judaico.

“Uno di noi, mille di voi” [Um de nós, mil de vocês]. Autoironia da pequena torcida do Siena em jogos fora de casa, 2003.

“Non sappiamo più come insultarvi.” [Não sabemos mais como lhes insultar]. Sinceridade absoluta dos indignados ultràs da Inter, em faixa endereçada à própria squadra, 2004.

“Giulietta è ’na zoccola” [Julieta é uma ratazana]. Resposta culturalmente razoável da torcida napolitana aos torcedores do Verona que expuseram a faixa “Vesuvio facci sognare” [Vesúvio: faça-nos sonhar]. A Julieta em questão é aquela mesma: a jovem veronesa enamorada de Romeu. | Juliano Bruni

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Vivo em um país fascista

Venerdì, 27 Febbraio 2009 · Lascia un Commento

A Itália sofre com um problema que se arrasta, grosso modo, há 150 anos – ou seja, desde sua unificação – mas especialmente desde o fim da Segunda Guerra. Quando Garibaldi entregou o território a Cavour, da Sicília ao Piemonte, o novo país teve de se confrontar com as diferenças internas. Harmonizar tudo não foi fácil, prova que até hoje se pena em dizer que a Itália é um país coeso. Logo depois veio Mussolini e a Itália se identificou ao extremo com o fascismo. Melhor dizendo, o fascismo surgiu de uma leitura do caráter do país recém unificado, daí sua entrada triunfal no inconsciente coletivo quando entregue por uma figura carismática. O título deste texto é bem explicado pelo fato que a Itália não perdeu a guerra. E isto é um problema. O fascismo não foi derrotado como seu primo alemão. Na Itália os fascistas têm um direito de existência impensável em relação à Alemanha derrotada – e envergonhada pelo nazismo. Evidentemente existiu, e existe, a Resistênica (uma das mais corajosas da história recente). Mas a mentalidade italiana permite a manutenção de certas tacanhices, e somos obrigados a rever rondas de cidadãos, turbas prontas a linchar estupradores – estrangeiros – em frente às delegacias, preconceitos sem fim em relação ao diverso, partidos de teor nazista ocupando cargos de governo, explicações simplistas e convenientes, perseguições. Tensão e ódio. Como diria um perfeito comentarista televisivo, especialista em amenizar as coisas, “o momento do país não é bom”. | Juliano Bruni

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Eu já sabia I

Martedì, 24 Febbraio 2009 · 3 Commenti

Em qualquer partida do futebol italiano, das séries menores à primeira divisão, estarão lá, entre os torcedores. Pequenos cartazes ou imensas faixas. As striscione são tradição cultural do calcio, muitas para o bem e igualmente muitas para o mal. Da leitura do excelente Calcio 1898-2007 , a história do esporte que fez a Itália, do historiador inglês John Foot, alguns positivos exemplares, pequenas demonstrações da presença de espírito italiana – como o célebre “Eu já sabia” da torcida esmeraldina de Caxias, nascido no 4-0 juventudino sobre o Inter, em pleno Beira-Rio, há exatos dez anos.

“Siamo tutti parruchieri” [Somos todos cabeleireiros]. Protesto irônico dos torcedores da Fiorentina por ocasião de uma partida disputada numa segunda-feira à noite na temporada 2000-2001, com o estádio semi-vazio. Às segundas-feiras os cabeleireiros italianos não abrem as portas.

“Questo calcio ci fa Sky-fo” [Este futebol nos dá “schifo”, que lê-se “squifo”, nojo em italiano]. Brincadeira lingüística em vários estádios para protestar contra o poder da tv no futebol, temporada 2003-2004.

“Vi invidiamo il panorama [Lhes invejamos o panorama]. A siciliana Messina e a calabresa Reggio Calabria situam-se uma ao lado da outra, separadas pelo estreito da Sicília e ambas com a mesma vista privilegiada para o monte Etna.

O pequeno Chievo Verona atinge o quarto lugar na temporada 2000-2001, conquistando uma improvável classificação para a Champions League, o que fez despertar a pertinente dúvida entre os tifosi: “Come si scrive Cempions Lig?”.

Os torcedores do pequeníssimo Fano parecem orgulhosos do “sucesso” futebolístico de sua squadra. Mai stati in B” [Nunca estivemos na B]. Jamais superou a Série C. | Juliano Bruni

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Marx e a Ciência

Venerdì, 20 Febbraio 2009 · 4 Commenti

Passeando por Padova numa manhã cinzenta deste inverno, eu e o Ju fomos abordados por uma ragazza que tentava arregimentar pessoas a fim de participarem de uma reunião. O encontro era organizado pelo Lotta Comunista, partido cinquentenário, sem representação do parlamento italiano, mas presente em todo o território nacional e com escritório na França. Depois de uma simpática insistência da parte dela, ficamos de pensar e ela nos ligaria para saber a resposta. Resolvemos ir. A sede do partido em Padova é bem estruturada. Fica no térreo de um prédio residêncial e é formada por uma pequena biblioteca que se localiza junto à recepção, uma sala de reuniões com capacidade para 50 pessoas, um grande escritório com talvez cinco computadores (não consegui ver a sala inteira) e outras pequenas salas. Entre os livros expostos, Marx e Lenin tinham destaque. Além desses, podia-se encontrar outros muitos teóricos comunitas, livros de História, o anarquista Bakunin e autores italianos.

O palestrante, que por sinal não se apresentou, começou seu discurso. O tema do encontro era “A força da ciência contra a mentira da ideologia”. Iniciou falando sobre a crise, apresentando dados, traçando paralelos. Expôs as falhas naturais do capitalismo, a luta entre burguesia e proletariado. “Não significa que todo burguês é mau e todo o proletário é bom. Não estamos fazendo julgamentos morais”, repetiu algumas vezes, completando que o ponto fundamental era a natureza do trabalho capitalista, patrão versus empregado. Na platéia, que deveria ser formada por mais de 40 pessoas, atenção total. Embora não concordasse com tudo o que era dito, estava contente de ver pessoas unidas em busca de respostas. Então o palestrante cometeu o erro mais corriqueiro e sem fundamento que a esquerda insiste em perpetuar. “Nosso partido é o único capaz…”

Como assim “nosso partido é o único capaz”? O Lotta Comunista acredita que suas bases (a análise do trabalho de Karl Marx) são científicas. Se marxismo é ciência, trata-se em princípio de Verdade e, portanto, incontestável. Não estou negando a grande colaboração de Marx para o entendimento da sociedade, mas não se pode tomar toda sua obra como irrefutável. Concordo com Noam Chomsky quando diz que o marxismo é quase uma religião. O linguísta americano sustenta que Marx introduziou conceitos que toda pessoa racional deveria conhecer e utilizar, noções como classe e relação de produção. Por outro lado, o marxismo supõe que existam leis históricas e econômicas para o desenvolvimento da humanidade. “Só o que posso dizer é que estas leis não entendo. Não porque eu conheça leis melhores, mas porque acredito que na História não existam leis.” A frase é de Chomsky, mas poderia ser minha.

O Lotta Comunista, ao que me parece, repete o comportamento de isolamento e auto-suficiência de outros tantos partidos de esquerda. Não sei se tem algum futuro se continuar com sua rígida noção de “cabeça pensante do proletariado”. Ao mesmo tempo, quando não mais acreditar nisso deixará de ser o que é, um partido marxista-leninista. | Veridiana Dalla Vecchia

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